Num galpão, afastado da casa, mantinha bem guardados,
todos os objetos que haviam pertencido à eles, e especialmente
os que foram dele.
Às vezes, pelo menos uma vez por semana,
então, ela costumava realizar uma espécie de ritual,
onde escolhia algum destes objetos, e o destruía
com uma enorme fúria e violência.
Ao final, parecia haver uma catarse, onde ela gargalhava
descontroladamente, e então, um arrepio costumava
percorrer todo corpo, e ela, extasiada,
se contorcia exausta no chão...
Ficava acabada, imóvel por um longo tempo
com os olhos arregalados, fixos, como se em transe...
Passado o rito, se sentia feliz, bem disposta,
alegre e realmente muito aliviada, revigorada...
Por algum tempo.
No começo, se sentia meio constrangida, achava que isto
até era algo doentio, mas após, ela se sentia tão bem e tão liberta,
que aceitou o rito, foi como uma forma de celebração, descarrego,
ainda que bizarra e secreta, mas, também depois de algum tempo,
poderosamente libertadora e deliciosa.
Mas, algumas vezes, dependendo do objeto escolhido,
o rito não se sucedia apenas em delícias...
Ocorriam lembranças complexas, e algumas, muito amargas...
Isto trazia um grande incômodo, algumas vezes, ela até
mesmo chorava... de soluçar.
Quando então recomposta, ficava furiosa, batia portas,
chutava paredes... e bufando, corria em torno do galpão
e de longe, jogava terra, pedras, galhos, ou que houvesse...
Gritava palavrões, urrava histericamente,
até perder o fôlego, até cair!
Parece, que isto ajudava, e fazia ela se sentir bem melhor...
Depois destas situações, durante uma ou duas noites,
ao chegar em casa, ela nem mesmo olhava para a direção
do galpão...
Isto, até que surgisse novamente aquela
enorme vontade de vasão...
e daí, multiplicada... até virar tesão.
À partir disto, mesmo durante o dia enquanto trabalhava,
ela já começava a pensar e replanejar o rito...
E então, só pensava nisto, num crescente,
até começar a atrapalhar suas tarefas...
Tal como acontecia antigamente, quando ela arquitetava uma briga,
para poder, depois, fazer 'às pazes', e daí, dar uma boa transada
de reconciliação...
Ela, como noutros tempos, quase perdia-se cega
numa espiral de excitação imaginária.
Nestas ocasiões, ao fim do dia, quando ela chegava em casa,
escolhia um objeto especial, algo que, não fosse exclusivamente dele,
algo que fora da casa, ou mesmo só dela, mas, que ela lembrasse
dele haver tocado, ou mesmo, apenas se referido especialmente,
com sua aprovação ou desaprovação durante alguma conversa,
ou que ele tivesse concertado, algo em que houvessem
lembranças complexas, associadas à eles dois ...
Então, naquela noite, retomava seu ritual...
E destruindo aqueles objetos, mais uma vez, se sentia
numa relação real, ainda que presa naquele ódio, e
também admiração, mesmo em meio à esta confusão,
que sentia entre repulsa e necessidade urgentes, esta
era uma sensação tão viva, tão legítima...
Assim, parecia, que manipulava aquela energia,
como se exorcizasse, e desta forma,
extraísse daquilo, fantasmas.
Podia então esfacelar todos estes espectros de amor,
e de interdependência, os de tesão, de ódio e paixão...
E daí, ela não os libertava, mas, se alimentava neles...
E repetia este rito, tantas vezes quanto fosse o necessário
para atingir esta espécie de êxtase psíquico,
loucamente abusando dos seus próprios fantasmas,
num ritual bizarro de tortura nas próprias lembranças.
ralleirias - Relação complexa I

Nenhum comentário:
Postar um comentário