quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Lapso temporal I

Quando soube o que havia acontecido, custei a acreditar.
A explicação que acompanhava a história, num primeiro momento, me pareceu proposição de ficção barata e novelesca, mas, dadas as circunstâncias, e apurados os eventos, e por conta da riqueza de detalhes da pesquisa histórica sobre os fatos, e que, eu vi e examinei com cuidado, e dei-me ao trabalho de conferir detalhes e minúcias, que sucederam-se e foram registrados algumas vez nos últimos 60 anos, tenho que admitir, que estou plenamente convencido, de que é verdade, é real, aconteceu e acontece.

Também fiquei bastante curioso, mas não ao ponto de arriscar um precioso tempo em fazer prova, ainda que no caso,  realmente não o perdesse, mas, o ganhasse, dada a circunstância pouco aprazível e confusa, e, acho que para qualquer pessoa comprometida com o andamento e progresso da própria vida, seria claramente refutável e indesejável tal prova... ainda que muito, muito interessante, seria mesmo estúpida.
Além disto, há o fato que, dada a resistência dos proprietários do local, que com isto, apenas contribuíram para reforçar as suspeitas, ou no caso, agora certeza, de que não se trata de mito ou devaneio coletivo (ainda que de um coletivo esparso e digamos 'forçado',  pois dispersam-se os relatos ao longo dos anos)...
Então, fazer tal prova, é mesmo agora quase impossível... E ainda, pesa que, ninguém quer passar por louco... Eu não faria prova... alguém se arriscaria?

Acontece que, exatamente no dia do solstício de verão, quando o sol fica à mais ou menos uns 45º para o poente, no paralelo 30º Sul, em Porto Alegre, capital Gaúcha, numa rua muito movimentada, e no alto de um prédio de um antigo café bastante conhecido,  há um local especial, onde talvez, por alguma concentração de energia telúrica ali, ou algo do tipo, acontece um fenômeno temporal absurdo e fantástico, transformando aquele pequeno espaço numa espécie de cela, um portal de tempo, onde adentrando uma vez, só se sai na próxima passagem do sol, no mesmo paralelo e meridiano e naquela mesma angulação, no próximo ano!

Contudo, parece que segundo os relatos, só acontece se neste momento apropriado o local estiver à sombra e ou escurecido. Quem ali adentra,  não envelhece durante um ano, ali o tempo não passa.
Muito estranhamente, o fenômeno não se aplica para a cronometragem do tempo externo do local, fora da sombra, é muito restrito. Não se sabe, se o que acontece para quem entra, ocorre no primeiro minuto, ou em cinco minutos, ou instantes, quem sabe aconteça apenas no tempo necessário para a escuridão se dar, e então desfazer-se, apenas talvez, por alguns momentos... Mas,  nos relatos disponíveis não há precisão alguma sobre tempo, senão,  apenas referências quanto à instantes, 'talvez' minutos, 'talvez' segundos...

É grande a confusão que fica na cabeça dos que vivenciaram o fenômeno e oportunamente deixaram registros, que aparecem em pequenas notas de jornal, geralmente como curiosidade, relato de devaneio, ou relatos em cartas de explicações à parentes, empregadores, esposas, filhos, ou em processos de retomada e litígios de recuperação de patrimônios e expedientes afins...
Há também, os que, dada a natureza do evento, assumem que não passou de uma loucura e por força da estranheza, acreditam realmente que ficaram loucos, pois eles próprios não aceitam o ocorrido e seus desdobramentos e a explicação, aparentemente com esta lógica esdrúxula.

De fato, quem cai neste 'fosso dimensional', não tem memória alguma sobre qualquer coisa em especial neste lapso temporal, o tempo próprio parece transcorrer na mais absoluta normalidade, e o indivíduo só saberá o que aconteceu, após descobrir e perceber que, o dia está diferente e não é o mesmo, e daí, posteriormente, ao sair do local, então, descobrir que também perdeu um ano inteiro no decorrer de sua vida, que já era dado como desaparecido ou morto por seus familiares e conhecidos, e suas coisas e negócios entraram em total colapso.
ralleirias  (Das diluições do impossível)



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