quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Monstro dialético...

Versado...
Monstro dialético...
Conduzia seus saberes como se o universo lhe fosse indexado.
Centrado... enxergava as complexidades de um mundo patético.
Transcendia toda a ciência, como se seu fosse este legado...

Conta-se que avançou por uma arte de saberes antigos...
e que despediu-se discretamente dos poucos amigos,
como se já houvesse, um novo rumo traçado...
-Todo homem, em vida... sempre será escravo ...
-Toda glória erigida é pífio estado!

Um dia foi encontrado
a balbuciar incoerências....
Seu corpo, pereceu na demência,
como se sua mente, o tivesse abandonado...
ralleirias


Ainda que, para mim, escrever pertença ao mais proibido dos frutos, eis uma carta para si, a quem amo e venero como uma irmã mais velha. Talvez seja a última! O horrendo e quase contínuo martírio da minha vida faz-me ansiar pelo meu fim, e, segundo muitos sinais, está bastante perto o ataque cerebral que há-de confirmar a minha esperança. A minha vida, nestes últimos anos, pode comparar-se, quanto a torturas e privações, com a de qualquer asceta de qualquer época. Apesar disso, consegui neste tempo suavizar e purificar de tal forma a minha alma que já não necessito, para isso, nem da religião nem da arte. Observará você que me sinto orgulhoso disso. Com efeito, o completo abandono levou-me a descobrir em mim próprio as fontes que haviam de prestar-me ajuda. Julgo haver realizado a obra que a vida me tinha reservado, se bem que levando-a a cabo como aquele a quem para isso não dão tempo, mas sei que, para muitos, verti uma boa gota de azeite, e que muitos receberam de mim um impulso para conseguirem a própria elevação, um espírito justo e uma inclinação pacífica.

Digo-lhe agora tudo isto, se bem que a verdadeira ocasião de o dizer fosse, porventura, quando a minha “parte humana" tivesse desaparecido. Nenhuma dor pôde conseguir, nem conseguirá nunca, que eu dê da vida um testemunho falso ou contrário àquele com que se apresenta ante os meus olhos.

A quem, senão a você, poderia eu dizer todas estas coisas? Creio, ainda que talvez seja imodéstia, que os nossos caracteres são muito parecidos. Ambos somos corajosos e nem a necessidade nem o menosprezo podem apartar-nos daquilo que nós sabemos ser o caminho direito. Ambos, também, temos experimentado muitas coisas dentro e fora de nós próprios, e só muito poucos entre os que nos rodeavam se aperceberam do resplendor; temos esperança com respeito à humanidade e oferecemo-nos em holocausto, como modestas vítimas. Não é certo?
(...)

Para você, minha querida, fraternal e venerada amiga, a saudação de um jovem ancião que não odeia a vida, ainda que deseje atingir o final da sua.

— Carta de Friedrich Wilhelm Nietzsche à Malwida Von Meysenbug, em Naumburg,14 de Janeiro de 1880.

Fonte: Despojos de Uma Tragédia - Friedrich Wilhelm Nietzsche.

Ps: Nesta época, F. W. Nietzsche havia terminado de escrever Morgenröte/Aurora; é a ela à qual ele se refere, na época, como a obra de sua vida.

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