quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O ufanismo a idolatria e a reificação - Leitura clínico-política dos fenômenos

Ufanismo, Idolatria e Reificação no Capitalismo Tardio:

Uma Leitura Clínico-Política a partir de Reich, da Neuropsicanálise e da Esquizoanálise

Rogério Ari Leirias


Este ensaio

 propõe uma leitura clínico-política dos fenômenos do ufanismo, da idolatria e da reificação enquanto dispositivos contemporâneos de captura do desejo e de assujeitamento subjetivo no capitalismo tardio. Articulando a teoria dos traços de caráter de Wilhelm Reich, as contribuições da neuropsicanálise contemporânea (*Mark Solms e Jaak Panksepp) e a perspectiva da esquizoanálise de Deleuze e Guattari, sustenta-se que tais fenômenos não devem ser compreendidos apenas como distorções cognitivas ou ideológicas, mas como respostas afetivo-corporais a um campo social adoecido. Avança o texto, na análise diagnóstica e para a proposição de linhas de fuga ético-existenciais, apontando alguns caminhos clínicos e políticos para além da reificação da vida, da mercantilização do eu e da captura dos desejos por dispositivos de poderes simbólicos.

Palavras-chave: reificação; caráter; neuropsicanálise; esquizoanálise; capitalismo tardio; subjetivação.


A produção de subjetividades

O capitalismo tardio inaugura uma forma inédita de dominação: não mais centrada exclusivamente na exploração do trabalho ou na coerção institucional direta, mas na produção sistemática de subjetividades adaptadas, desejantes de sua própria submissão. Nesse contexto, fenômenos como o ufanismo, a idolatria e a reificação emergem não como anomalias periféricas, mas como estruturas centrais de regulação afetiva e social.

Este ensaio observa a hipótese de tais fenômenos operarem no campo dispositivo clínico-político, organizando o sofrimento psíquico, a adesão ideológica e os modos de pertencimento contemporâneos.  Para tanto, propõe-se uma articulação entre três campos teóricos:

(a) a teoria reichiana dos traços de caráter;
(b) a neuropsicanálise, especialmente os trabalhos de Solms e Panksepp;
(c) a esquizoanálise, enquanto crítica radical às formas *molarizadas de desejo.

(* na Física, uma solução é dita "molarizada" quando sua concentração foi ajustada para um valor específico.)


Reich e a política do corpo - Caráter e adaptação

Para Wilhelm Reich, o caráter não é um conjunto de traços psicológicos isolados, mas uma organização defensiva somato-psíquica, historicamente produzida em resposta às exigências do meio social. O caráter constitui-se como uma “couraça”, simultaneamente psíquica e corporal, cuja função é regular o afeto e conter a angústia.

No capitalismo tardio, essa couraça deixa de responder apenas à repressão sexual ou moral, passando a adaptar-se a um regime de:

  • hiperestimulação;

  • competição permanente;

  • exposição contínua;

  • avaliação constante do valor do eu.

Traços de caráter clássicos — compulsivo, histérico, masoquista, fálico-narcísico — reaparecem sob formas atualizadas, agora diretamente articuladas aos dispositivos de mercado, às redes sociais e às narrativas de performance e sucesso.

O ufanismo encontra terreno fértil em organizações caracterizadas pela rigidez e moralidade ' excessivamente alinhadas'; a idolatria, em estruturas dependentes de validação; a reificação, em couraças que transformam a si e aos outros em funções, métricas ou imagens. Em todos os casos, o caráter deixa de ser apenas defesa individual e torna-se operador político de adaptação ao sistema.


O afeto primário e a captura do desejo - Neuropsicanálise 

As contribuições da neuropsicanálise contemporânea aprofundam essa leitura ao recolocar o afeto no centro da vida psíquica. Jaak Panksepp identifica sistemas afetivos primários — SEEKING, FEAR, PANIC/GRIEF, entre outros, como fundações neurobiológicas do desejo, da curiosidade e dos vínculos.

E o capitalismo digital opera diretamente sobre esses sistemas, as redes sociais e o marketing contemporâneo hiperativam o sistema SEEKING, mantendo o sujeito em estado crônico de busca, de excitação e expectativa, sem possibilidades de satisfação real. Simultaneamente, exploram o sistema PANIC/GRIEF, associando pertencimento à visibilidade e exclusão ao silêncio ou à irrelevância.

Mark Solms reforça que o inconsciente é fundamentalmente afetivo, não representacional. Assim, o apego a ídolos, ideologias ou identidades rígidas não decorre prioritariamente de erro cognitivo, mas de tentativas de regulação afetiva frente à angústia, à perda de sentido e ao medo do não-pertencimento/engajamento.

A reificação, nesse quadro, surge como uma defesa ao transformar pessoas e relações e a si mesmo em “coisas”... o sujeito pensa reduzir a imprevisibilidade do mundo, ainda que ao custo da vitalidade.


Do trabalho à existência - Reificação e alienação

Retomando Lukács, ('cada crise é a própria autocrítica do capitalismo'. A crítica da reificação revela que o capitalismo não é um sistema de leis naturais, mas, na verdade, é uma expressão historicamente contingente do estilo de vida da burguesia.)assim, a reificação constitui uma operação mental e social que transforma abstrações em entidades concretas e seres humanos em objetos. No capitalismo tardio, esse processo ultrapassa o campo do trabalho e invade a totalidade da existência.

O indivíduo se relaciona consigo mesmo como produto, marca ou capital simbólico. O corpo torna-se plataforma; a subjetividade, conteúdo; a vida, performance mensurável. Tal dinâmica aprofunda as quatro formas clássicas de alienação: do produto, do processo, da condição humana e do outro.

Clinicamente, observa-se a dissociação entre excitação e satisfação, corpo e afeto, desejo e encontro. Politicamente, consolida-se uma forma de dominação que prescinde de repressão explícita: o sujeito participa ativamente de sua própria objetificação.


O desejo, captura e linhas de fuga - Esquizoanálise

A esquizoanálise desloca a questão do caráter para o campo dos fluxos de desejo. Não se pergunta “qual é ou em qual traço atua?”, mas “onde o desejo foi bloqueado, capturado ou desviado?”. Ufanismo, idolatria e reificação aparecem, assim, como formas molarizadas do desejo, cristalizadas em grandes narrativas, identidades rígidas e imagens transcendentes e culturais.

Contra isso, a esquizoanálise propõe o não como escapismo e a criação de  linhas de fuga, como reabertura da produção desejante. 'Linhas de fuga' são movimentos ético-existenciais que devolvem ao corpo, ao vínculo e à experiência sua potência criativa, emergem dos sistemas afetivos primários (SEEKING- BUSCA).


As Linhas de fuga ético-existenciais

As alternativas ao assujeitamento contemporâneo não são primariamente ideológicas, mas clínicas, corporais e relacionais. Entre elas, destacam-se:

  1. Reativação do corpo vivido: práticas que devolvam ao sujeito a capacidade de sentir antes de narrar, reduzindo a dissociação afetiva.

  2. Desidolatrização clínica: retirada gradual das projeções idealizadas, permitindo a reapropriação da potência subjetiva.

  3. Pertencimentos rizomáticos: comunidades menores, vínculos vivos, não totalizantes.

  4. Reabertura do sistema SEEKING ao encontro real: curiosidade, arte, estudo e criação sem finalidade mercadológica.

  5. Ética do inacabado: sustentação da falha, da ambiguidade e do não-saber como resistência à reificação.


Algumas considerações...

O sofrimento contemporâneo não pode ser compreendido apenas como patologia individual, nem resolvido por ajustes adaptativos ao sistema. Trata-se de uma crise de produção de subjetividade, inscrita no corpo, no afeto e no desejo.

A clínica, nesse contexto, é inseparável da política. E a política, para ser transformadora, precisa tocar o nível micropolítico do desejo. A superação do ufanismo, da idolatria e da reificação não passa pela substituição de ídolos ou narrativas, mas pela reaprendizagem do desejar, em sua dimensão corporal, relacional e criativa.

Contra a lógica da coisa, afirmar a vida como processo.
Contra a captura do desejo, sustentar sua potência de criação.


e um poema :

Na gênese de todo desejo, há parcialidades e transitoriedades
Mora ali, assim, a consciência de uma entidade desejante 
também volátil como estes mundos em que opera...
Desta forma, pode acontecer que a conquista 
daquelas coisas que realmente não precisamos,
comprometa boa parte do tempo de nossas 
histórias pessoais. E ainda que alcançada a meta, 
esta condição eventualmente poderá não nos manter ou saciar ...
No entanto, mesmo isto, pode ser bom ...ou ruim.(?).
E assim, resolver nossos desejos compreendendo-os em 
sua gênese, pode nos dar pistas de como fortalecer 
nossas vontades, de forma que, estas buscas de 
conquistas, não sejam tão importantes quanto
o próprio saber (ou o querer) desejar...o seu lugar.
 Aonde o auto controle, existirá pela auto satisfação.
E aquilo que lhe moverá no mundo, virtuosamente, será 
cada vez mais autenticamente o que é você...
Metateatro_2014

Rogério Ari Leirias
Terapeuta sistêmico | Gestalt-terapeuta | Esquizoanalista
Hipnoterapeuta | Pesquisador em psicopatologia crítica e subjetivação contemporânea


* Mark Solms e Jaak Panksepp são figuras centrais na Neuropsicanálise, um campo que integra descobertas da neurociência com a psicanálise freudiana, com Panksepp focando na Neurociência Afetiva (os sistemas emocionais primários no cérebro) e Solms explorando os mecanismos cerebrais dos sonhos e a base neural dos afetos. Ambos contribuíram para entender as emoções e o self, ligando a experiência subjetiva às estruturas cerebrais, com Panksepp identificando os sistemas "busca", "cuidado", "brincadeira", "luxúria" (positivos) e "medo", "tristeza", "raiva" (negativos

- Crônicas sistêmicas

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