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"O sionismo euro-americano (judeu e cristão) matou milhões na Ásia Ocidental, devastou a região e é o motor por trás do genocídio de Gaza. Mas o próprio estado de Israel está ameaçado de cair presa da lógica mortal que deu origem ao Estado em primeiro lugar. Hoje celebramos um debate sobre o que torna o sionismo uma força tão perigosa e, em última análise, até auto-negadora. Estou acompanhado por três acadêmicos de renome mundial: o professor Yakov Rabkin da Universidade de Montreal, o professor Manuel Ramos do Instituto Universitário de Lisboa e o professor Jeffrey Sachs da Universidade de Columbia.
Links: Livros de Yakov: Israel na Palestina: a oposição judaica ao sionismo: https://www.barnesandnoble.com/w/isra... O que é o Israel moderno?: https://www.barnesandnoble.com/w/what...
"O sionismo euro-americano (judeu e cristão) matou milhões na Ásia Ocidental, devastou a região e é o motor por trás do genocídio de Gaza. Mas o próprio estado de Israel está ameaçado de cair presa da lógica mortal que deu origem ao Estado em primeiro lugar. Hoje celebramos um debate sobre o que torna o sionismo uma força tão perigosa e, em última análise, até auto-negadora. Estou acompanhado por três acadêmicos de renome mundial: o professor Yakov Rabkin da Universidade de Montreal, o professor Manuel Ramos do Instituto Universitário de Lisboa e o professor Jeffrey Sachs da Universidade de Columbia.
Links: Livros de Yakov: Israel na Palestina: a oposição judaica ao sionismo: https://www.barnesandnoble.com/w/isra... O que é o Israel moderno?: https://www.barnesandnoble.com/w/what...
Substack de Neutrality Studies: https://pascallottaz.substack.com
Moderador: Pascal Lottaz
Moderador: Pascal Lottaz
Boas-vindas a todos. Hoje realizamos um debate sobre o sionismo com três acadêmicos de renome internacional: Professor Jacob Rabkin, da Universidade de Montreal;
Professor Manuel Ramos, do Instituto Universitário de Lisboa;
Professor Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia.
Vídeo do painel sobre sionismo: https://youtu.be/tQwllkFzVcc?si=w8b3wFgceqR5b1H1
Senhores, muito obrigado por aceitarem o convite.
1. O que é o sionismo?
Moderador:
Sabemos que o sionismo é um tema complexo. Jacob, você escreveu livros sobre o rejeição judaica ao sionismo. Manuel, num podcast anterior, você comparou o sionismo às Cruzadas. E Jeffrey, você também tem estudado essa questão há anos. Por onde devemos começar? O sionismo é um projeto cristão, europeu ou transatlântico? Político, religioso ou imperial?
Jacob Rabkin:
O sionismo é, antes de tudo, um movimento político cujo objetivo é levar os judeus à Terra Santa por meios políticos ou militares. Essa ideia difere radicalmente das esperanças messiânicas do judaísmo — e também do cristianismo.
Na verdade, a origem dessa concepção remonta a teólogos protestantes do século XVII, que a viam como parte da redenção, da Segunda Vinda de Cristo e do fim dos tempos. Para eles, era essencial reunir todos os judeus na Terra Santa, para que reconhecessem Jesus como Messias — ou perecessem se não o fizessem. Um cenário extremamente problemático, para dizer o mínimo.
Essa visão ganhou força no século XIX com os interesses geopolíticos do Império Britânico, que desejava uma base estratégica perto do Canal de Suez. Quando os judeus entraram nesse projeto, já era fim do século XIX — e era impopular entre a maioria dos judeus.
Hoje, o sionismo é a ideologia oficial do Estado de Israel. Muitos israelenses — como o ex-presidente da Knesset Abraham Burg, o jornalista Gideon Levy e outros — afirmam que, nos dias atuais, ser sionista equivale a ser racista ou fascista.
Manuel Ramos:
Vejo o sionismo como uma ramificação de um fenômeno mais amplo: o messianismo, presente no cristianismo, no islã e no judaísmo. A crença num futuro perfeito e num juízo final é quase tão antiga quanto a humanidade.
A origem histórica dessa corrente, no caso do sionismo ocidental, pode ser traçada até as Cruzadas e a visão fundamentalista cristã sobre a Terra Santa. Curiosamente, o islamismo também possui uma forte tradição apocalíptica — a Segunda Vinda de Isa (Jesus) é um pilar do pensamento muçulmano.
Além disso, existem formas não ocidentais de sionismo — como na Etiópia, no Corno de África e na América do Sul — que não se baseiam em Jerusalém como centro geográfico, mas sim como símbolo espiritual. Essas formas são muito mais presentes do que futuristas, ou seja, focam no “hoje”, não no “amanhã”.
Há também uma ideia comum, mas equivocada, de que o tempo linear é exclusivo do Ocidente e o tempo cíclico, do Oriente. Na verdade, muitas tradições orientais têm fortes vertentes messiânicas. O apocalipse, nesse sentido, pode ser entendido não como fim absoluto, mas como retorno à condição original, pré-queda — portanto, também cíclico.
Jeffrey Sachs:
É surpreendente que, como movimento político, o sionismo seja em grande parte ateu — não é preciso ser religioso para ser sionista.
O sionismo moderno nasceu como um nacionalismo europeu típico do final do século XIX, baseado na ideia de que cada “povo” precisa de seu próprio Estado. Essa lógica levou à balcanização da Europa e à crença de que sociedades multiétnicas são inviáveis.
Theodor Herzl — fundador do sionismo político — era totalmente irreligioso. Para ele, a localização do “lar nacional” (seja em Uganda ou na Terra Santa) era uma questão tática, não teológica. Seu foco era o antissemitismo europeu e a ideia de que os judeus jamais seriam aceitos na Europa.
Com o tempo, o sionismo transformou-se na ideologia de um Estado real: Israel. Hoje, afirma-se que Israel é o Estado do povo judeu, e que o judaísmo é uma nação, não apenas uma religião.
É crucial destacar: o sionismo não é o judaísmo. Muitas correntes do judaísmo sempre se opuseram ao sionismo — e continuam a fazê-lo. O sionismo é, em essência, um nacionalismo étnico europeu, não uma expressão da fé judaica.
2. Nacionalismo excludente e contradições messiânicas
Moderador:
Jacob, você mencionou que o sionismo, apesar de ter raízes em várias tradições monoteístas, é uma forma exclusivista de nacionalismo. Por quê?
Jacob Rabkin:
Sim. O sionismo atual tem pouco a ver com as tradições messiânicas do judaísmo rabínico, que enfatizam a ética, a autotransformação e a justiça social — não a conquista territorial por meios militares.
O judaísmo não tem um “Vaticano”. Há inúmeras interpretações sobre o Messias e o fim dos tempos. Mas o sionismo político — nascido no Império Austro-Húngaro, com Herzl em Budapeste — é fruto do nacionalismo étnico europeu, que exige pureza demográfica.
Esse nacionalismo é excludente e, em Israel, serve de justificativa para limpeza étnica e até genocídio. Antes, escondiam essa ideia; hoje, falam abertamente.
Manuel Ramos:
Quero acrescentar o elemento colonial. O sionismo israelense é um produto colonial. É simbólico que a África do Sul — país que viveu o apartheid — tenha levado Israel à Corte Internacional de Justiça por genocídio.
Enquanto isso, na África e na América Latina, o “sionismo evangélico” é massivo — cerca de 30% da população brasileira se identifica com ele. Mas esse sionismo não é exclusivista; é antirracista e anticolonial em muitos casos (como no movimento rastafári).
Há, portanto, uma tensão entre dois sionismos: um colonial e étnico (Israel) e outro simbólico e libertário (África/América Latina).
3. O salvavidas imperial: apoio britânico e estadunidense
Moderador:
Jeff, sem o apoio internacional — especialmente dos EUA e do Reino Unido — Israel como o conhecemos existiria?
Jeffrey Sachs:
Não. Israel foi criado por dois impérios:O Império Britânico, com a Declaração Balfour (1917) — impulsionada por interesses estratégicos (Canal de Suez, petróleo, Mar Vermelho);
O Império Estadunidense, que pressionou pela partilha da Palestina em 1947, concedendo 56% do território a um terço da população (judeus), contra a vontade dos árabes.
Desde então, os EUA têm sido o protetor militar e diplomático de Israel — muitos estrategas o chamam de “porta-aviões dos EUA no Oriente Médio”.
Além disso, o lobby sionista nos EUA influenciou decisões cruciais: a guerra no Iraque (2003), a tentativa de derrubar Assad na Síria, o bombardeio da Líbia etc. Israel não existiria sem esse apoio imperial.
4. Da laicidade ao fanatismo religioso
Jeffrey Sachs:
Nos anos 1940–1960, Israel era laico, socialista e secular. Quando voltei nos anos 1980, vi jovens religiosos nas ruas — os Gush Emunim — colonizando territórios palestinos com fervor messiânico.
Essa mudança foi impulsionada por figuras como o rabino Meir Kahane, que misturou nacionalismo e fanatismo religioso. Eles usam textos como o Livro de Josué — que ordena o genocídio de sete nações — como manual político.
Jacob Rabkin:
Até 1967, os fundadores de Israel eram socialistas seculares. Um colega israelense resumiu a lógica deles assim:
“Deus não existe… mas Ele nos prometeu esta terra.”
Após a Guerra dos Seis Dias, a posse de Jerusalém, Hebron e da Cisjordânia provocou uma euforia messiânica. O filho do rabino Kook formou toda uma geração de colonos religiosos.
Hoje, os sionistas religiosos — os dati leumi (“nacionalistas religiosos”) — são a força mais ativa e devota em Israel. Têm mais filhos, mais influência política e controlam o projeto colonial.
A lógica é clara:
“Estamos cercados. Precisamos nos expandir.”
E assim, Israel avança — primeiro contra palestinos, depois contra árabes, Irã… sempre em expansão.
5. A instrumentalização do antissemitismo
Jacob Rabkin:
O antissemitismo não só foi usado como justificativa, mas cultivado ativamente pelo movimento sionista.
Herzl escreveu em seu diário:
“Os antissemitas serão nossos melhores aliados.”
Em países muçulmanos, onde judeus viveram em paz por séculos, agentes sionistas provocaram violência para forçar a migração para Israel.
Hoje, qualquer crítica a Israel é rotulada de “antissemitismo” — mesmo em universidades como Columbia, onde a maioria é judia! Israel é tratado como o “judeu coletivo”, e sua política é imune à crítica.
Mas Israel não é uma vítima indefesa. É uma potência nuclear com um dos exércitos mais poderosos do mundo.
6. Conclusão: radicalização e déficit democrático
Manuel Ramos:
Estamos diante de uma radicalização do projeto sionista, que coincide com a crise da hegemonia ocidental. É como se o sionismo fosse o último grito de um império em colapso.
A lógica é perversa:
“Ou somos exterminados… ou cometemos genocídio.”
E a escolha, claramente, foi a segunda.
A Europa, aliás, está com lideranças débeis e impopulares — Macron, Starmer, etc. Há um abismo entre os governos e seus povos.
Jeffrey Sachs:
Há, contudo, um raio de esperança: a maioria da humanidade, expressa nas Nações Unidas, exige que Israel:Volte às fronteiras de 1967;
Pare o genocídio em Gaza;
Reconheça um Estado palestino soberano.
A opinião pública global rejeita a ocupação israelense — mesmo que os governos ocidentais, sob pressão do lobby, não ajam.
Jacob Rabkin (comentário final):
Isso revela um déficit democrático profundo: os povos condenam as políticas de seus governos… mas nada muda. Israel, por sua vez, aperfeiçoou tecnologias de vigilância e controle — e chama qualquer opositor de “terrorista”.
A saída? Organizar-se para superar esse déficit democrático — tanto globalmente quanto dentro de Israel.
Moderador (encerramento):
Agradeço profundamente aos professores Jacob Rabkin, Manuel Ramos e Jeffrey Sachs por esta discussão esclarecedora. E já temos o tema do nosso próximo seminário: “Déficit Democrático e Futuro da Paz”.
- Crônicas das lutas de classe
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