terça-feira, 23 de dezembro de 2025

a neurose e suas correlações na batalha sistêmica do 'Eu' e Nós'

Na convocação à clínica contemporânea, em diálogo com a filosofia, a psicanálise e a crítica da cultura, vamos examinar com cuidado a estrutura da neurose e suas correlações, atravessando alguns eixos conceituais fundamentais, sobretudo no que concerne à neurose e ao narcisismo, ao autismo entendido como contraponto sistêmico, e à possibilidade de uma subjetividade criativa e curativa a partir de uma perspectiva esquizoanalítica — herdeira de Deleuze, mas também aberta a outros pensadores como Félix Guattari, Jean Oury, ou mesmo a certas leituras lacanianas contemporâneas.

 A neurose: estrutura clássica e sua crise no contemporâneo

Na psicanálise clássica (Freud, Lacan), a neurose é uma estrutura subjetiva marcada pela repressão, pela culpa, pelo conflito entre desejo e lei simbólica. O sujeito neurotizante é, em certo sentido, fiel à lei , mesmo que sofra por isso. Ele busca sentido, reconhecimento simbólico, é atravessado pela fala e pelo Outro.

Mas hoje, essa estrutura clássica parece colapsar. O que antes era mediado pelo simbólico,  a família, a escola, a religião, o Estado, agora é subsumido por forças narcisistas, fragmentadas, hiperconectadas e desreguladas: o capitalismo tardio, as redes sociais como dispositivos de captura subjetiva, a mercantilização da intimidade.

→ A neurose não desaparece, mas se metamorfoseia: ela já não se sustenta mais em uma ordem simbólica clara, e sim em uma desordem narcísica onde o Outro é esvaziado, e o sujeito é convocado a se autoproduzir continuamente (como marca, como conteúdo, como performance).

 Narcisismo: não como traço, mas como estrutura sistêmica

É crucial deslocar o narcisismo de uma patologia individual para um dispositivo social. Como observou Christopher Lasch (A cultura do narcisismo), e mais recentemente Byung-Chul Han (Sociedade do cansaço), o narcisismo contemporâneo é uma exigência do sistema: o eu deve ser empreendedor, flexível, autônomo, visível — porém sem a mediação de um Outro simbólico forte.

Esse narcisismo não é 'egotismo(egolatria)', mas isolamento paradoxal: uma forma de conexão que desconecta, de comunicação que silencia o desejo real. É um narcisismo sem amor, uma identidade sem espessura ética, uma subjetividade sem laço social verdadeiro.

 O autismo como resposta sistêmica (não patológica, mas epistêmica)

Aqui  nossa formulação propõe que o autismo não seja lido apenas como um transtorno neuropsiquiátrico, mas como uma resposta da psicosfera (termo de Guattari) a um sistema doente e nessa perspectiva — não clínica, mas político-filosófica — o autismo aparece como uma recusa da híper exposição narcísica; Um retiro da performance identitária; Funciona como uma proteção da sensibilidade frente à violência simbólica do mundo atual e uma tentativa (sistêmica- talvez fracassada? mas ética e  sintomática sobre as impossibilidades armadilhadas pelos assujeitamentos irremediavelmente agenciados pelos lugares pré-concebidos nas derrotas sociais que oportunizam o sistema explorar a energia de cada integrante...) de não se deixar capturar pelas máquinas de subjetivação contemporâneas.

Guattari, em seus escritos sobre a ecologia das subjetividades, via no autismo uma potência criativa de desligamento, não necessariamente negativa, mas um modo de resistência à colonização da interioridade.

Não se tratando de dogmatizar lugar para o autismo, especialmente o' clínico', mas de reconhecer que a psicosfera coletiva — o ambiente mental do planeta / lugar de existência psicossocial e performático —  está produzindo formas de subjetivação que assujeitam e inclusive simulam e emulam sistematizações formadoras da condição de autismo, e ali inclusive como defesa, opera assim uma desconexão que oferta e recebe desinteresses pelo e ao sistema e o outro, no fechamento, a recusa impossibilidade no laço, a fuga da linguagem comum, o desconhecimento do potencial de conexão, a impotência fica como lugar naturalizado pela inércia de objetivos correlacionais. A resistência num hiato de potências que conversa de alguma forma com os campos da pacificação, como produto também da impotência mútua estabelecida, que resulta do sistema aviltante que o induz derrotas lucrativas para a sociedade que delas se nutre em partes diferentes de suas estruturas sociais e político econômicas. E assim, nem sempre isso andará de fato nos campos da 'paz'

Esquizoanálise: entre os extremos, a criação

É aí que entra a esquizoanálise, como método e como ética. Para Deleuze & Guattari, a esquizoanálise não é sobre tratar esquizofrênicos, mas sobre liberar fluxos, desfazer estruturas rígidas, criar novas formas de existência.

Ela se opõe tanto ao narcisismo performático quanto ao autismo defensivo, não por negá-los, mas por transcendê-los através da produção de novos territórios existenciais.

“A esquizoanálise não busca curar, mas abrir linhas de fuga — criar agenciamentos que permitam ao sujeito reinventar seus laços, sem se submeter à lógica do Um (do narcisismo) nem se fechar no Zero (do isolamento autístico).”

Novas estruturas de movimento: subjetividades saudáveis?

“Saudável” aqui não deve ser entendido no sentido médico, mas ético-estético: subjetividades que habitam a ambiguidade sem colapsar e mantêm laços sem fusão, que criam sem precisar se expor como mercadoria e que resistem sem se fechar, podendo desejar sem depender do reconhecimento do Outro capitalista.

Essas subjetividades emergem contemporaneamente em micropolíticas cotidianas: Coletivos de cuidado; Práticas artísticas não competitivas, geram cultura de educações não 'normalizantes' -criativos, suas tecnologias relacionais (não digitais, mas afetivas) inauguram lugares de possibilidades em respeito aos  espaços de silêncio e escuta mútua.. São formas de se reencantar com o vínculo, sem cair na ilusão da harmonia ou na armadilha do individualismo tóxico e exacerbado.

Além da batalha, a criação

A “batalha sistêmica” entre narcisismo e autismo é na verdade, um sintoma da falência do laço social. 

Nossa saída não está em nos opormos e um polo vencer ao outro, mas em produzirmos um terceiro termo, que seria o agenciamento coletivo de nosso(s) desejo(s).

A esquizoanálise nos convida a desmontar as máquinas de assujeitamento (capitalismo, patriarcado, colonialismo, narcisismo digital) e construir novos mundos, não como utopia, mas como prática concreta de resistência e invenção, é como diz Guattari: 

“Precisamos de novas formas de existência, não de diagnósticos.”

 Assim, serão cruciais para pensarmos formas de resistência subjetiva, que venham a existir novos modos de laço social e práticas de cura coletiva diante do colapso simbólico e material e social atual. E teremos de tratar cada um com densidade conceitual elevada e organizada, mas sempre com um olhar voltado à criação prática de mundos habitáveis mais humanos. vamos examinar alguns conceitos:

 Narcisismo e capitalismo cognitivo: a captura do desejo pela economia da atenção

O capitalismo cognitivo — termo desenvolvido por autores como Yann Moulier-Boutang, Christian Marazzi e André Gorz — se caracteriza pela valorização do conhecimento, da afetividade, da linguagem e da própria subjetividade como fontes primárias de produção de valor. Nesse regime, não se explora apenas o trabalho braçal, mas o cérebro, o corpo vivo, os afetos, os dados comportamentais, a atenção e até os sonhos.

O narcisismo como infraestrutura subjetiva do capital cognitivo

O sujeito contemporâneo é convocado a se tornar uma "marca", um produtor contínuo de conteúdo, um empreendedor de si mesmo (Foucault). Esse empreendedorismo do eu exige visibilidade constante, auto exposição calculada e gestão da própria imagem e tudo isso alimentado por uma lógica narcísica.

O narcisismo aqui não é vaidade, mas estratégia de sobrevivência subjetiva a ideia de que ' se não te veem, você não existe'; e que se não performa seu valor, você é descartável. Escreve Byung-Chul Han que o' sujeito neoliberal não é oprimido, mas se explora a si mesmo na ilusão de ser livre.”

A economia da atenção (Wu, 2016) transforma o olhar alheio em moeda de troca. O desejo não é mais orientado pelo Outro simbólico (Lei, Nome-do-Pai, Édipo), mas pelo Outro algorítmico (likes, algoritmos, trending topics) - um lugar sintético. 

O resultado é uma subjetividade esgotada, hiperconectada mas desligada do desejo real — pois o desejo foi substituído por preferências manipuláveis. A consequência clínica e social é o desaparecimento da neurose clássica (baseada na culpa e no conflito com a Lei) e ascensão de novas formas de sofrimento: depressão, ansiedade generalizada, burnout, vazio existencial.(a dor é insumo/produto/ um ativo intangível)

O sujeito não mais se pergunta “O que o Outro quer de mim?”, mas “Quantos me viram? Quantos me validaram?” É uma pergunta que nunca encontra resposta, pois o Outro digital é infinito, volátil e impessoal.

O autismo como ética do cuidado da sensibilidade

Aqui, deslocamos radicalmente o autismo de sua categoria clínica (TEA) para uma figura conceitual , A subjetividade (em tom de catarse) em um modo de resistência ética diante da violência simbólica e sensorial do mundo contemporâneo.

O autismo como recusa da captura

Em um mundo que exige disponibilidade total, conectividade ilimitada, respostas imediatas e afetos performáticos, o gesto autístico de fechar-se, não responder, não interagir conforme o esperado, torna-se uma forma de autopreservação radical.  Não se trata de patologia, mas de ética da sensibilidade, proteger-se da poluição sensorial, da agressão simbólica  - das redes, da exigência de decodificação constante dos códigos sociais que mascaram relações de poder e sujeição.

Guattari e a “hipersensibilidade autística”

Em *Caosmose e As três ecologias, Guattari sugere que certas formas de "autismo" (no sentido amplo) podem ser modos de conexão com mundos outros, com realidades moleculares, com ritmos não acelerados.  O sujeito autístico, nessa leitura, não falta ao mundo, mas recusa o mundo tal como oferecido — e, ao fazê-lo, abre espaço para outras formas de presença e subjetividades do existir. -  “O autismo pode ser uma resistência à colonização da percepção.” 

podemos percebe-lo como parte orgânica , humana deste combate natural à um estágio social de adoecimento coletivo aonde a razão e a lógica performática dominante sequestram as energias das demais identidades, e nesta trilha, estabelecendo forçosamente uma fronteira orgânica catártica, inaugurando lugares sociais de resistências (o aumento de casos implica em mobilização social, legal, conceitual e organizacional, econômica e psíquica -cultural  )  forças que emergem  buscando e fundando lugares para as novas estruturas de conversão orgânicas, pois agenda a corporeidade, a linguagem e a desenvoltura social linguística  e resiliências. 

* Caosmose - 1992 universo complexo onde a ordem e a desordem, o individual e o coletivo, estão em constante interação e transformação (A proposta de Guattari é a ecosofia, uma ética-estética-política que conecta esses três domínios, rejeitando visões compartimentadas e buscando a criação de novas práticas de existência.) — Félix Guattari

Cuidado como ato político

Cuidar da sensibilidade — a própria e a alheia — torna-se um ato subversivo, e isso implica em desacelerar e silenciar;  não responder quando não se quer, proteger os espaços íntimos da mercantilização, Essa postura não é egoísmo, mas recusa do sacrifício da intimidade em nome da produtividade social. Honrar os limites sensoriais e emocionais como fronteiras éticas.

Transversalidade como chave para novos laços

A proposta positiva da esquizoanálise é a de descobrir como criar laços que não reproduzam as lógicas do narcisismo competitivo nem do isolamento defensivo. E a transversalidade, termo cunhado por Jean-Paul Sartre, mas radicalmente reinventado por Félix Guattari, o facilitaria

Enquanto a verticalidade é hierárquica (Estado, instituições, poder) e a horizontalidade é homogênea (igualdade formal, consenso), a transversalidade opera diagonalmente: atravessa campos distintos (arte, clínica, política, tecnologia) sem unificá-los. É um modo de conexão heterogênea, que respeita as diferenças e produz novos agenciamentos sem anular singularidades. A transversalidade como prática de cura coletiva, em vez de tentar curar o indivíduo isolado, propõe curar os territórios existenciais e os espaços de vida compartilhada.

Alguns Exemplos:

Um coletivo artístico, que inclui pessoas neurodiversas, psicóticas, artistas, terapeutas — sem hierarquia de saber;  Uma escola que não normaliza, mas cria ecossistemas de aprendizagem múltiplos; Uma clínica que mistura escuta psicanalítica, práticas corporais, poesia e política. 

A transversalidade como antídoto ao narcisismo e ao autismo Contra o narcisismo, ela descentra o eu: conecta sem exigir performance. Contra o autismo defensivo, ela oferece laços não invasivos: contato sem captura. Ela permite estar com o outro sem fundir-se, nem dominar, nem fugir. “A transversalidade é o fio condutor de uma ética relacional que não se baseia na identidade, mas na diferença em movimento.” — Félix Guattari

Além da batalha, o tecido

Nossa época está marcada por uma forçada, uma  falseada dicotomia, em que ou você se expõe (o expoente é então um narcisismo produtivo? ultra explorado por quem?-  mas sempre esgotante),  ou você se isola. 
A esquizoanálise, através da transversalidade, propõe um terceiro caminho que é o conectar-se de forma seletiva, ética, criativa, sem se perder forças, Esse é um caminho para subjetividades saudáveis não no sentido normativo, mas no sentido de serem capazes de habitar a complexidade e produzir mundos comuns sem apagar singularidades, cuidando da sensibilidade como bem comum..

-crônicas sistêmicas


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