Uma Perspectiva Sistêmico-Esquizoanalítica
A compreensão dos traços de caráter, conforme estabelecido por *Wilhelm Reich, oferece uma chave valiosa para desvendar as dinâmicas profundas que moldam nossa psique e nossa interação com o mundo. Quando integrados aos estudos de neurociência afetiva, em especial as descobertas de *Jaak Panksepp e os desenvolvimentos de *Mark Solms, percebemos que essas estruturas emocionais básicas — busca, fuga, luta, gozo, ser amado, amar e dominar — atuam como fluxos fundamentais que nutrem e condicionam a formação dos traços de caráter.
Esses fluxos, além de serem intrínsecos à nossa biologia, são modulados pelas dinâmicas sociais e históricas. Ao incluir uma análise esquizoanalítica, podemos perceber como as estruturas de poder — o patriarcado, o capitalismo e seus dispositivos de controle — operam não apenas sobre os corpos, mas diretamente sobre a psique, moldando o devir individual. O caráter, nesse sentido, emerge como uma defesa e uma conformação, não apenas diante do trauma pessoal, mas diante das exigências de um sistema que necessita transformar subjetividades em combustível para sua própria manutenção.
A Relação dos Traços com os Sistemas Emocionais Primordiais
Cada traço de caráter, conforme Reich definiu, possui uma ligação intrínseca com esses sistemas emocionais que guiam nosso comportamento desde o nascimento. Ao longo do desenvolvimento, essas emoções básicas são distorcidas ou exacerbadas, conforme as pressões sociais, econômicas e familiares. Vejamos como esses sistemas emocionais se relacionam com cada traço de caráter.
1. Busca (SEEKING) e o Traço Esquizóide
O sistema de busca, descrito por Panksepp, é o que nos motiva a explorar o ambiente, a procurar conexões e recursos. No traço esquizóide, no entanto, esse fluxo é frequentemente interrompido. O indivíduo esquizóide, que tende a se isolar para evitar o contato emocional e a dor relacional, acaba vivendo uma busca constante que nunca se concretiza. A desconexão com o mundo externo reflete uma dificuldade de integrar plenamente essa emoção exploratória. O que poderia ser uma energia direcionada para a descoberta é travada por um medo subjacente de ser invadido ou ferido pelo outro.
Essa dinâmica muitas vezes é reforçada por uma sociedade que valoriza a competitividade e o isolamento produtivo, transformando o ato de buscar em um movimento mecânico, desconectado do prazer de explorar e criar laços genuínos.
2. Fuga (FEAR) e o Traço Oral
O sistema de fuga é ativado quando há uma percepção de ameaça. O traço oral, caracterizado pela dependência e uma necessidade profunda de ser nutrido, reage com uma tendência de fuga frente a qualquer rejeição ou abandono. O medo de não ser cuidado ou de perder o vínculo essencial com o outro torna-se uma força paralisante. Nesse sentido, o indivíduo oral pode desenvolver padrões de fuga emocional, afastando-se de situações onde a necessidade de ser cuidado não é prontamente atendida.
Essa fuga é exacerbada por uma cultura de desconexão, onde os laços afetivos são frequentemente precários e fragmentados, deixando o indivíduo à mercê de um ciclo de dependência e frustração.
3. Luta (RAGE) e o Traço Masoquista
O sistema de luta é ativado quando encontramos bloqueios ou frustrações. No traço masoquista, essa energia é muitas vezes voltada para dentro, em vez de ser expressa para o mundo externo. O masoquista reprime sua agressividade, conformando-se às expectativas dos outros e sufocando suas próprias vontades. A luta não se manifesta de maneira aberta, mas se transforma em uma batalha interna, um ciclo de repressão e sofrimento autoinfligido.
Na perspectiva sistêmica, essa repressão não é apenas pessoal, mas também socialmente induzida. Em um sistema que valoriza o conformismo e o sacrifício, o traço masoquista é funcional ao capital, transformando a energia de luta em uma resistência silenciosa, mas dolorosa.
4. Gozo (LUST/PLEASURE) e o Traço Rígido
O sistema de gozo ou prazer está profundamente ligado ao desejo e à busca por satisfação. No traço rígido, esse fluxo emocional é controlado e cuidadosamente monitorado. O rígido se permite o prazer, mas apenas dentro de condições estritas de controle e perfeição. Qualquer expressão espontânea de prazer é vista com desconfiança, pois o rígido teme perder o controle de sua própria imagem.
O rígido é o produto de uma sociedade que idolatra a perfeição e o sucesso. O prazer, assim, torna-se um bem controlado, algo a ser “merecido” dentro das normas e expectativas sociais, em vez de uma experiência livre e autêntica.
5. Ser Amado (ATTACHMENT) e o Traço Psicopata
O sistema de apego é responsável por criar laços afetivos profundos. No traço psicopata, entretanto, esse vínculo é distorcido pela necessidade de controle. O psicopata busca o afeto, mas faz isso de forma manipulativa, garantindo que o outro permaneça sob seu poder. A experiência de ser amado, para o psicopata, é mediada pelo controle e pela dominação.
Em um sistema de poder hierárquico, o traço psicopata é reforçado, pois a manipulação dos laços afetivos garante o controle não apenas nas relações pessoais, mas também nas esferas de poder e status social.
6. Amar e Dominar (CARING e PLAY) e os Traços
Finalmente, o sistema de cuidado e jogo está relacionado à capacidade de criar reciprocidade e empatia. No entanto, cada traço de caráter lida com esses fluxos de maneira distinta. O traço oral pode estar preso na busca por ser cuidado, enquanto o psicopata utiliza o cuidado como uma ferramenta de manipulação. Já o rígido pode ter dificuldade em relaxar e entrar no fluxo do jogo, uma vez que isso implica abrir mão do controle.
No contexto esquizoanalítico, vemos que essas dinâmicas emocionais são diretamente impactadas pelas forças sociais que moldam a subjetividade. A cultura de controle, competição e produtividade reprime o jogo, o cuidado genuíno e a empatia, distorcendo esses fluxos em direções que servem ao sistema em vez de liberar o potencial humano.
Reflexões Finais
A intersecção entre os traços de caráter e os sistemas emocionais de Panksepp revela um mapa profundo de como as emoções fundamentais são moduladas e distorcidas pelas forças sociais. Cada traço carrega em si a marca de uma luta interna, mas também de uma luta contra as exigências de um sistema que transforma a subjetividade em combustível para sua própria continuidade.
Como terapeutas, nosso papel é ajudar o indivíduo a reconhecer essas dinâmicas e, através da consciência e da integração, liberar essas emoções de suas prisões, permitindo que a busca, o prazer, o cuidado e o vínculo sejam experimentados em sua forma mais autêntica e livre.
- Crônicas sistêmicas
Referências:
Jaak Panksepp e Mark Solms são neurocientistas que fazem parte de um grupo de pesquisadores que argumentam que as emoções são antigas e compartilhadas entre várias espécies, estando enraizadas nas estruturas mais antigas do cérebro.A neurociência afetiva é o ramo da neurociência que estuda como as emoções surgem no cérebro. A neuropsicanálise é uma área científica recente que se baseia na neurociência afetiva e que vincula os alicerces neurobiológicos do pensamento, da ação e dos sentimentos a um modelo psicanalítico da mente.
A Sociedade Internacional de Neuropsicanálise (Neuro-PSA) é um fórum de discussão e intercâmbio entre psicanalistas e outros profissionais, como neurologistas, neurocientistas, neurobiólogos e neuro-filósofos.
Jaak Panksepp é autor de obras como Affective Neuroscience, The foundations of Human and Animal Emotions (1998) e The Archaeology of Mind, neuroevolutionary origins of human emotions (2012)
Nenhum comentário:
Postar um comentário