O Modelo de "Triangulação" de Panksepp e Suas Conexões com a Visão Sistêmica e Gestalt-Terapêutica Esquizoanalítica
O modelo de "triangulação" de Jaak Panksepp é uma proposta pioneira no campo das neurociências, especialmente ao abordar as emoções sob uma lente integrativa que contempla comportamento, fisiologia e afeto. Panksepp, ao enfatizar a interconexão desses três elementos, aproxima-se de uma visão holística, que pode dialogar diretamente com princípios da terapia sistêmica, da Gestalt-terapia e da esquizoanálise.
Dentro da prática terapêutica sistêmica, há o reconhecimento de que o comportamento humano e suas expressões emocionais não são fenômenos isolados, mas sim produtos de um campo relacional e de interações dinâmicas com o ambiente. Isso ressoa profundamente com o modelo de triangulação de Panksepp, que sugere que o comportamento emocional é inseparável de suas bases fisiológicas e da experiência subjetiva do indivíduo. A emoção, em um contexto sistêmico, é vista como parte de um fluxo contínuo de influências entre o sujeito e seu meio — um reflexo do que Panksepp observa em sua pesquisa com mamíferos, em que as reações emocionais são moldadas tanto por fatores internos quanto externos.
Na Gestalt-terapia, o foco recai sobre a experiência do aqui e agora, e o terapeuta busca trazer o cliente para o presente, promovendo a integração entre corpo, mente e emoção. Panksepp, ao incluir os afetos como componente central de sua triangulação, reforça essa perspectiva. Em sua visão, os afetos não são apenas respostas fisiológicas ou comportamentais, mas sensações subjetivas que orientam a organização do comportamento. Em termos gestálticos, isso nos lembra que não podemos dissociar o que sentimos de como agimos ou de como nosso corpo responde. A emoção é vivida no presente e integrada nas interações dinâmicas que o indivíduo tem com o ambiente.
Já na esquizoanálise, que visa desconstruir as narrativas fixas que mantêm o sujeito preso a padrões rígidos de funcionamento, o modelo de Panksepp oferece uma oportunidade valiosa para explorar os afetos como forças transformadoras. Panksepp reconhece que as emoções básicas, com suas raízes evolutivas profundas, têm uma função adaptativa que transcende a mera resposta ao ambiente imediato. Elas são forças pulsantes que organizam o comportamento, e, na esquizoanálise, essa organização é vista como um campo aberto para intervenções criativas e disruptivas. Ao focar nos sistemas subcorticais, Panksepp nos lembra de que o afeto surge de lugares primitivos e instintivos, o que pode ser entendido como uma expressão dos "desejos maquínicos" que Gilles Deleuze e Félix Guattari discutem em seus trabalhos. A emoção, portanto, torna-se uma via de transformação contínua, uma potência vital que pode ser mobilizada para mudanças profundas no ser.
Adotar uma abordagem triangulada das emoções, como Panksepp propõe, é alinhar-se a uma visão integrada do ser humano, onde corpo, mente e sentimento são reconhecidos como indissociáveis. Na prática terapêutica, seja pela lente sistêmica, gestáltica ou esquizoanalítica, essa integração é fundamental. O sujeito é uma totalidade dinâmica que se transforma continuamente, influenciado por seus afetos, pelas respostas corporais e pela interação com seu entorno.
Dessa forma, o modelo de "triangulação" oferece um campo fértil para intervenções terapêuticas que buscam não apenas compreender o comportamento emocional, mas trabalhar a partir dele, transformando padrões disfuncionais e promovendo uma maior autoconsciência. O terapeuta, então, atua como facilitador dessa integração, ajudando o cliente a identificar e compreender suas emoções em todos os níveis — do fisiológico ao subjetivo —, permitindo que o indivíduo, enfim, se reposicione em relação a si mesmo e ao mundo.
O modelo de "triangulação" de Panksepp não apenas aprofunda nossa compreensão das emoções básicas, mas também oferece ferramentas valiosas para o trabalho terapêutico. A triangulação entre comportamento, fisiologia e afeto abre novas possibilidades para intervenções que reconhecem o ser humano em sua complexidade e totalidade.
Referências sobre Jaak Panksepp Jaak Panksepp foi um neurocientista pioneiro no campo da neurociência afetiva. Ele é amplamente reconhecido por seu trabalho sobre as bases neurobiológicas das emoções e pela identificação dos sistemas de emoções básicas em mamíferos. Entre suas principais obras, destacam-se Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions (1998) e inúmeros artigos que investigam o papel dos sistemas subcorticais nas respostas emocionais.
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