segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Observação do Comportamento Emocional:

 O Modelo de "Triangulação" de Panksepp e Suas Conexões com a Visão Sistêmica e Gestalt-Terapêutica Esquizoanalítica

O modelo de "triangulação" de Jaak Panksepp é uma proposta pioneira no campo das neurociências, especialmente ao abordar as emoções sob uma lente integrativa que contempla comportamento, fisiologia e afeto. Panksepp, ao enfatizar a interconexão desses três elementos, aproxima-se de uma visão holística, que pode dialogar diretamente com princípios da terapia sistêmica, da Gestalt-terapia e da esquizoanálise.

Dentro da prática terapêutica sistêmica, há o reconhecimento de que o comportamento humano e suas expressões emocionais não são fenômenos isolados, mas sim produtos de um campo relacional e de interações dinâmicas com o ambiente. Isso ressoa profundamente com o modelo de triangulação de Panksepp, que sugere que o comportamento emocional é inseparável de suas bases fisiológicas e da experiência subjetiva do indivíduo. A emoção, em um contexto sistêmico, é vista como parte de um fluxo contínuo de influências entre o sujeito e seu meio — um reflexo do que Panksepp observa em sua pesquisa com mamíferos, em que as reações emocionais são moldadas tanto por fatores internos quanto externos.

Na Gestalt-terapia, o foco recai sobre a experiência do aqui e agora, e o terapeuta busca trazer o cliente para o presente, promovendo a integração entre corpo, mente e emoção. Panksepp, ao incluir os afetos como componente central de sua triangulação, reforça essa perspectiva. Em sua visão, os afetos não são apenas respostas fisiológicas ou comportamentais, mas sensações subjetivas que orientam a organização do comportamento. Em termos gestálticos, isso nos lembra que não podemos dissociar o que sentimos de como agimos ou de como nosso corpo responde. A emoção é vivida no presente e integrada nas interações dinâmicas que o indivíduo tem com o ambiente.

Já na esquizoanálise, que visa desconstruir as narrativas fixas que mantêm o sujeito preso a padrões rígidos de funcionamento, o modelo de Panksepp oferece uma oportunidade valiosa para explorar os afetos como forças transformadoras. Panksepp reconhece que as emoções básicas, com suas raízes evolutivas profundas, têm uma função adaptativa que transcende a mera resposta ao ambiente imediato. Elas são forças pulsantes que organizam o comportamento, e, na esquizoanálise, essa organização é vista como um campo aberto para intervenções criativas e disruptivas. Ao focar nos sistemas subcorticais, Panksepp nos lembra de que o afeto surge de lugares primitivos e instintivos, o que pode ser entendido como uma expressão dos "desejos maquínicos" que Gilles Deleuze e Félix Guattari discutem em seus trabalhos. A emoção, portanto, torna-se uma via de transformação contínua, uma potência vital que pode ser mobilizada para mudanças profundas no ser.

Adotar uma abordagem triangulada das emoções, como Panksepp propõe, é alinhar-se a uma visão integrada do ser humano, onde corpo, mente e sentimento são reconhecidos como indissociáveis. Na prática terapêutica, seja pela lente sistêmica, gestáltica ou esquizoanalítica, essa integração é fundamental. O sujeito é uma totalidade dinâmica que se transforma continuamente, influenciado por seus afetos, pelas respostas corporais e pela interação com seu entorno.

Dessa forma, o modelo de "triangulação" oferece um campo fértil para intervenções terapêuticas que buscam não apenas compreender o comportamento emocional, mas trabalhar a partir dele, transformando padrões disfuncionais e promovendo uma maior autoconsciência. O terapeuta, então, atua como facilitador dessa integração, ajudando o cliente a identificar e compreender suas emoções em todos os níveis — do fisiológico ao subjetivo —, permitindo que o indivíduo, enfim, se reposicione em relação a si mesmo e ao mundo.

O modelo de "triangulação" de Panksepp não apenas aprofunda nossa compreensão das emoções básicas, mas também oferece ferramentas valiosas para o trabalho terapêutico. A triangulação entre comportamento, fisiologia e afeto abre novas possibilidades para intervenções que reconhecem o ser humano em sua complexidade e totalidade.


Adendo: A Esquizoanálise e a Contribuição de Deleuze e Guattari

A esquizoanálise, proposta por Gilles Deleuze e Félix Guattari, representa uma ruptura com as abordagens tradicionais da psicanálise, colocando em foco a desconstrução das estruturas fixas e a valorização dos fluxos de desejo como elementos essenciais na compreensão da subjetividade. Em sua obra seminal O Anti-Édipo (1972), eles criticam o modelo psicanalítico freudiano, propondo uma análise das forças que atravessam o sujeito, em vez de se concentrar apenas em traumas individuais ou no complexo familiar.

Deleuze e Guattari introduzem o conceito de "máquinas desejantes", que são as forças produtivas e criativas que operam em cada indivíduo, compondo sua subjetividade. Essas "máquinas" atuam de forma contínua, gerando afetos, sensações e relações com o mundo. A esquizoanálise não busca interpretar esses desejos de forma normativa, mas sim liberá-los, permitindo ao indivíduo acessar novas formas de organização e expressão.

Nesse sentido, o modelo de "triangulação" de Panksepp, ao destacar a importância dos afetos emocionais como forças organizadoras do comportamento, dialoga diretamente com o pensamento de Deleuze e Guattari. Para eles, o afeto é uma expressão de um desejo que atravessa o sujeito e o sistema social no qual ele está inserido. Assim, o trabalho esquizoanalítico consiste em desvendar esses fluxos de desejo, permitindo que o indivíduo se reconecte com suas forças criativas e se desfaça de padrões rígidos e limitadores.

Enquanto Panksepp explora os sistemas emocionais subcorticais que governam nossos afetos básicos, Deleuze e Guattari tratam dos fluxos desejantes como forças que movimentam a subjetividade, numa dança constante entre o corpo e o mundo. Ambos reconhecem que há um "substrato" profundo no ser humano — seja biológico ou maquínico — que orienta o comportamento e molda a experiência, sendo, portanto, terreno fértil para intervenções transformadoras na terapia.

- Crônicas sistêmicas 


Referências sobre Jaak Panksepp Jaak Panksepp foi um neurocientista pioneiro no campo da neurociência afetiva. Ele é amplamente reconhecido por seu trabalho sobre as bases neurobiológicas das emoções e pela identificação dos sistemas de emoções básicas em mamíferos. Entre suas principais obras, destacam-se Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions (1998) e inúmeros artigos que investigam o papel dos sistemas subcorticais nas respostas emocionais.

Referências sobre Gilles Deleuze Gilles Deleuze foi um dos filósofos mais influentes do século XX, conhecido por sua obra em metafísica, epistemologia e política. 

Referências sobre Félix Guattari Félix Guattari, por sua vez, foi psicanalista e ativista, trabalhando amplamente com saúde mental e política. Juntos, desenvolveram a esquizoanálise, principalmente em seus livros O Anti-Édipo (1972) e Mil Platôs (1980). A esquizoanálise desafia as abordagens tradicionais da psicanálise e da psiquiatria, propondo um estudo das forças de desejo que atravessam o indivíduo e a sociedade, rompendo com a lógica edipiana e promovendo uma visão não hierárquica e não linear da subjetividade.



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