Vivemos imersos num oceano de imagens... Uma sucessão de representações que se sobrepõem, escondem e apagam a realidade por trás da cortina de pixels e algoritmos.
Jean Baudrillard ( filósofo e sociólogo francês-1929–2007), em sua obra seminal Simulacros e Simulação (1981), descreve esse fenômeno como o 'simulacro' — uma sucessão de imagens ou cópias que substituem e distorcem o real até o ponto em que não há mais um "original" a ser reconhecido, apenas cópias infinitas de cópias, o hiper-real. É como um vírus que se infiltrou em cada poro da nossa experiência cotidiana. Se antes éramos capazes de distinguir o "real" de sua representação, hoje nos encontramos perdidos em um fluxo contínuo de hiper-realidades, onde as distinções se dissolvem. Não há mais "original" a ser encontrado. Apenas espelhos de espelhos (como se todos 'tivessem' sonhos semelhantes, assim viajam para as mesmas cenas turísticas, cumprem semelhantes narrativas de vidas...cultuam 'igual' diferentes totens, e ainda sobem e descem escadas diversas nas hierarquias pré-combinadas e seus agenciamentos compartilhados...).
As redes sociais materializam esse simulacro em sua forma mais aguda. Ali, cada perfil é um reflexo curado e modelado, uma máscara que encobre a multiplicidade de vivências e, ao mesmo tempo, nos insere em bolhas virtuais onde tudo é familiar, confortável, previsível, dando condições de manutenção de nossos ideais de identidade e hierarquia social. Essas bolhas, desenhadas pelos algoritmos, não são por acaso. Elas são como os 'tentáculos' do capitalismo tardio, agindo silenciosamente, - às vezes nem tanto - convertendo nossas vidas intelectuais, emocionais e produtivas em combustível para sua própria perpetuação.
Mas há algo mais profundo operando aqui, algo que invade não apenas o espaço virtual, mas o nosso próprio corpo... O simulacro, essa miragem digital, não é sustentado apenas pela estética, mas por um motor biológico implacável: a dopamina. A cada "curtida", a cada notificação, uma descarga sutil de dopamina inunda o cérebro, como uma gota que preenche um copo. E nós, sedentos, ansiamos pela próxima gota, pela próxima dose de validação instantânea. O simulacro captura, não só a mente, mas o sistema de recompensa que, outrora, nos impulsionava a explorar o mundo, agora nos mantém presos a uma tela... É virtual, mas estagna a corporeidade... Literalmente por vezes, nos imobiliza e ou mobiliza nos seus agendamentos, já quase prioritários nas nossas vidas...
E então... O capital entendeu isso muito bem. Ele não precisa mais agenciar apenas a produção de bens materiais ou o trabalho físico. Ele agencia nossos cérebros, nossa atenção. A força vital que antes era investida na construção de ideias, no diálogo profundo e na criação coletiva, agora se esvai em pequenos fragmentos de prazer momentâneo. Vivemos o que podemos chamar de obsolescência dopaminérgica. Uma corrida contra o tempo onde as ideias, os sentimentos, e até mesmo as próprias identidades se tornam obsoletos tão rapidamente quanto o próximo smartphone ou gadget que o capital nos força a consumir. Estamos numa gaiola de ratos correndo numa esteira a qual eles decidem qual é a velocidade e portanto qual a quantidade de energia que teremos que consumir, e depois devolver em tempo e mais consumos obrigatórios não só de fótons e bits, mas, também produtos objetivos e subjetivos, físicos, sutis e até secretos... em materiais, conceitos, teores, cores e objetos, e desejos, e sentimentos, e criações mas também, loucuras e sintomas... em ciclicidades de elevações e declínios.
E assim, o ritmo do capitalismo tardio se impõe, ditando não apenas a obsolescência dos produtos, mas das próprias vidas. Somos forçados a nos reinventar constantemente, num ciclo interminável de adaptação e descarte, sem jamais alcançar um ponto de estabilidade. Tudo é transitório. Tudo é efêmero. O simulacro não se contenta em substituir a realidade; ele a devora, diluindo-a em pequenos pedaços, manipulando nossas emoções e desejos.
O esgotamento dopaminérgico é apenas um reflexo desse processo. Cada prazer efêmero oferecido pelas redes sociais deixa um vazio maior. E, como viciados em busca de uma dose mais forte, nós nos lançamos de volta à hiper-realidade, onde a dopamina se tornou a moeda corrente. Nessa lógica, as vidas se tornam mercadorias, moldadas pelo ritmo do capital. Nossa atenção, nossas emoções, nossos pensamentos — tudo convertido em números, em dados, em lucro.
Não há fuga fácil desse ciclo. Baudrillard nos advertiu que, uma vez dentro do simulacro, a saída é quase imperceptível. E agora, com o próprio sistema neurológico atrelado à lógica capitalista, a prisão é dupla. Mas aqui é onde devemos nos reconectar com a vida real, com o fluxo natural onde de fato existimos. Fora das bolhas virtuais, há um espaço de verdadeira profundidade, onde a experiência não é ditada pelo ritmo acelerado do capital ou pelos impulsos fugazes de dopamina. Esse é o espaço onde somos mais humanos, mais completos... E nos é ainda possível.
E quando somos capazes de navegar conscientemente entre esses dois mundos — o digital e o real — podemos, finalmente, utilizar a rede como uma ferramenta, sem nos prostrar diante de seus agenciamentos. Assim, as redes sociais deixam de ser um fim em si mesmas(tão fim como final do encanto no fundo buraco do exaurimento de sentido do capital tardio...), convertendo-se em meios para conectar, informar e construir, nos apropriando assim do melhor que está disposto por estas tecnologias, sem nos aprisionar no ciclo vicioso de obsolescência e gratificação imediata. A verdadeira liberdade não está em fugir da rede ou de cumprir agendas de escolhas implicitamente sistêmicas, mas em trafegar por elas com autonomia e consciência, sabendo onde elas servem aos nossos propósitos e onde devemos nos desvencilhar de suas amarras.
- Crônicas das lutas de classe
O real, também
compõem-se de
pequenas distorções
do natural...
Mas, há um ponto,
em que o natural
é suprimido
e o real comprimido
dentro dos sonhos
e desejos, assim,
compondo o ideal...
E o ideal em seus
devaneios
de realidade,
acha-se natural
como a verdade...
ralleirias - metateatro_2014
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