quarta-feira, 30 de outubro de 2024

A Teoria Geral dos Sistemas e as teorias de campos Mórficos

 A Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig von Bertalanffy é uma abordagem fundamental que ajuda a entender sistemas complexos em várias disciplinas, como biologia, psicologia, sociologia e ecologia, promovendo uma visão holística do mundo. O conceito-chave de Bertalanffy é que os sistemas não podem ser compreendidos apenas pela soma de suas partes, pois as inter-relações e interdependências entre elementos criam propriedades emergentes. Isso permite uma visão integrada, especialmente útil para analisar estruturas sociais e culturais, como o patriarcado e as narrativas mitológicas que moldam comportamentos coletivos.

Os principais pontos da Teoria Geral dos Sistemas:

Sistemas Abertos e Fechados

  • Sistemas Abertos: São sistemas que interagem com o ambiente, trocando energia, matéria ou informação. Essa característica é essencial para entender como estruturas como o patriarcado, embora aparentemente estáveis, mudam com as influências externas (movimentos sociais, transformações culturais, novas tecnologias).
  • Sistemas Fechados: Em contraste, sistemas fechados têm pouco ou nenhum intercâmbio com o ambiente externo. Embora existam poucos sistemas fechados na realidade, algumas culturas patriarcais mais rígidas tentam manter uma estrutura próxima ao "fechado", limitando influências externas para manter a tradição.

Totalidade e Emergência

  • Totalidade: Na teoria dos sistemas, o todo é maior que a soma das partes. Assim, o sistema patriarcal, por exemplo, não pode ser entendido apenas analisando indivíduos (pais, filhos, papéis de gênero), mas precisa ser visto como um organismo social completo, onde cada elemento contribui para a manutenção ou subversão da estrutura.
  • Propriedades Emergentes: Essas são características que surgem de uma rede de interações entre elementos e que não são observáveis nas partes isoladas. No contexto de nossa análise, a “norma patriarcal” emergente afeta o comportamento individual e coletivo, moldando percepções, valores e atitudes, ainda que ninguém, individualmente, intencione perpetuar essa estrutura.

Equilíbrio e Homeostase

  • Bertalanffy descreve os sistemas como dinâmicos, buscando sempre um equilíbrio. No patriarcado, por exemplo, a homeostase é mantida por meio de normas, tradições e mitos que reforçam o status quo. Quando ocorre um movimento de transformação, como a emancipação feminina ou mudanças nos papéis de gênero, o sistema responde para tentar restabelecer um novo ponto de equilíbrio, ajustando-se às novas influências.
  • Esse conceito também é relevante para entender os sistemas de crenças e como eles se adaptam para absorver mudanças, sem perder completamente o seu núcleo central.

Interdependência e Interconectividade

  • Em um sistema, os elementos são interdependentes, o que significa que mudanças em uma parte impactam o sistema como um todo. O patriarcado, como sistema social, não só afeta as interações familiares, mas também o mercado de trabalho, a política e até a estrutura de linguagem.
  • Esse ponto é fundamental na esquizoanálise, que busca mapear as interconexões entre sistemas individuais (psique) e coletivos (sociedade), identificando como sistemas sociais influenciam diretamente o comportamento e o autoconhecimento de cada pessoa.

Perspectiva Sistêmica e Autossuficiência

  • Ao aplicar a Teoria Geral dos Sistemas, é possível ver como movimentos de emancipação e busca por autossuficiência atuam de maneira sistêmica. Essas ações não ocorrem isoladamente; são respostas a pressões do sistema social e, ao mesmo tempo, impactam o próprio sistema.
  • Na perspectiva gestáltica, a autossuficiência — ou seja, a capacidade de atuar de forma lúcida e presente — pode ser vista como uma maneira de reposicionar-se em relação ao sistema patriarcal, questionando sua autoridade e buscando o desenvolvimento pessoal fora de papéis preestabelecidos. Essa busca por autonomia contribui para a transformação de todo o sistema social.

Aplicação Prática da Teoria dos Sistemas na Análise de Estruturas Sociais

A Teoria Geral dos Sistemas oferece ferramentas conceituais para observar:

  • Como movimentos sociais (como o feminismo ou movimentos pela igualdade de gênero) não são apenas reações a uma estrutura opressiva, mas também geradores de novas interações, mudando o próprio “ecossistema” social.
  • Como as mitologias e narrativas culturais funcionam como "circuitos de feedback", reforçando o status quo (ou, no caso de mitos revisionistas, oferecendo saídas e visões alternativas).
  • Como o indivíduo, ao adotar uma postura consciente (awareness) e ativa em relação ao sistema, altera seu papel e, ao fazer isso, influencia o equilíbrio do sistema.

Da Estrutura ao Fluxo

Bertalanffy argumenta que uma visão sistêmica deve ser dinâmica, reconhecendo o fluxo constante e a mudança como parte essencial da vida dos sistemas. Assim, o patriarcado e as narrativas de poder podem ser vistos não como estruturas fixas, mas como sistemas em fluxo, que podem se dissolver ou se transformar conforme novas interações e pressões surgem. A Teoria Geral dos Sistemas oferece um modelo abrangente para analisar a sociedade e o comportamento humano, apontando que mudanças individuais, quando somadas, são capazes de impactar o todo.

As confluências entre a Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig von Bertalanffy e as teorias de campos Mórficos de Rupert Sheldrake.

Há uma interessante confluência entre a Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig von Bertalanffy e as teorias de Rupert Sheldrake, especialmente sua hipótese dos campos mórficos e ressonância mórfica. Ambos abordam a interconectividade e a ideia de que os sistemas (biológicos, sociais e culturais) possuem propriedades que vão além das partes individuais. No entanto, eles o fazem de maneiras distintas: enquanto Bertalanffy foca na estruturação e interação dos sistemas através de princípios científicos e observáveis, Sheldrake propõe que existe uma espécie de "campo informacional" que influencia padrões e comportamentos.

Pontos de Confluência

  1. Interconectividade e Padrões Emergentes

    • Bertalanffy fala sobre propriedades emergentes nos sistemas, ou seja, características que surgem das interações entre os elementos e não são observáveis em partes isoladas. Essas propriedades são uma expressão da organização e das relações que formam o sistema.
    • Sheldrake propõe algo semelhante com a ressonância mórfica, que é a ideia de que padrões de comportamento e formas biológicas são transmitidos através de um "campo" que conecta os indivíduos de uma espécie ou grupo. De acordo com ele, esse campo "mórfico" cria um padrão que os sistemas seguem, mantendo comportamentos e estruturas sem precisar de uma transmissão direta ou genética.
  2. Memória e Habituação dos Sistemas

    • Memória nos Sistemas: Bertalanffy não descreve um campo como Sheldrake, mas reconhece que os sistemas podem apresentar padrões de comportamento ou reações habituais como resultado de suas interações e adaptações. Isso seria semelhante à maneira como as sociedades criam e mantêm normas, tradições e estruturas de poder.
    • Campos Mórficos e Memória Coletiva: Sheldrake teoriza que existe uma “memória coletiva” que persiste nos campos mórficos. Esse campo influencia membros da mesma espécie ou grupos, levando a comportamentos aprendidos em uma geração a serem, de alguma forma, transmitidos e replicados em outras. Isso se alinha com a visão sistêmica de que o ambiente cultural ou social de um grupo pode "repetir" e solidificar padrões comportamentais.
  3. Mudança Sistêmica e Ressonância

    • Ambos também compartilham a ideia de que mudanças individuais podem, em última análise, influenciar o sistema maior.
    • Na Teoria Geral dos Sistemas, pequenos ajustes em uma parte do sistema podem levar a uma reestruturação no sistema como um todo, à medida que busca um novo ponto de equilíbrio.
    • Na Hipótese da Ressonância Mórfica, mudanças que se consolidam em um indivíduo ou grupo acabam, eventualmente, influenciando o campo mórfico da espécie ou grupo. Se determinado comportamento ou característica se torna comum, Sheldrake sugere que essa mudança ressoa e passa a influenciar outros membros, potencialmente resultando em uma mudança coletiva.
  4. Autossuficiência e Evolução Sistêmica

    • A perspectiva de Bertalanffy sobre sistemas abertos implica que os sistemas evoluem através de adaptações, onde influências externas e mudanças internas contribuem para a autossuficiência e sobrevivência. É uma noção de evolução que se encaixa com o conceito de campos mórficos de Sheldrake, onde o campo que conecta um sistema se "adapta" ou se modifica para acomodar novos comportamentos ou descobertas, criando uma evolução não-linear.

Divergências

  1. Método Científico vs. Metafísica

    • Bertalanffy manteve sua teoria dentro de um quadro científico, tentando explicar os sistemas com base na observação, na biologia e em outras ciências. Ele buscava criar uma metodologia aplicável a diferentes domínios, como uma linguagem comum para descrever sistemas complexos.
    • Sheldrake, ao introduzir conceitos como campos mórficos, entra em um campo mais especulativo e metafísico, pois suas ideias não se baseiam na observação direta nem são passíveis de uma comprovação tradicional científica. Ele propõe um tipo de “campo informacional” que desafia as teorias convencionais de genética e biologia.
  2. Explicação das Propriedades Emergentes

    • Para Bertalanffy, as propriedades emergentes são o resultado de interações observáveis e mensuráveis entre elementos do sistema.
    • Para Sheldrake, no entanto, os campos mórficos representam um tipo de "memória" não-biológica e não-observável diretamente, que facilita a emergência de comportamentos e formas.

Aplicação Conjunta na Análise de Estruturas Sociais

Quando aplicadas juntas, essas teorias fornecem uma visão profunda da formação e perpetuação de sistemas como o patriarcado:

  • Bertalanffy oferece uma estrutura para entender como elementos inter-relacionados mantêm a estrutura do sistema patriarcal, adaptando-se a pressões sociais, tecnológicas e culturais.
  • Sheldrake complementa essa visão ao sugerir que existe uma "memória coletiva" ou “campo mórfico” que reforça tais sistemas, permitindo que estruturas de dominação e normas culturais se perpetuem mesmo com mudanças de indivíduos.

Portanto, as duas teorias dialogam ao mostrar que sistemas complexos, como o patriarcado, a cultura e as normas, são mantidos não só pelas interações observáveis entre seus elementos, mas também por um "campo" informacional ou uma “memória” sistêmica. Essa visão integrada permite entender como mudanças significativas podem ser alcançadas não apenas através de ações individuais, mas também através de influências coletivas e da ressonância cultural ou psicológica.

Pontos centrais de ambas as teorias que refletem sua visão de sistemas interligados e processos de desenvolvimento:

  1. Teoria Geral dos Sistemas de Bertalanffy: Bertalanffy propôs a TGS como uma maneira de entender sistemas complexos, vivos e inanimados, em termos de seus elementos inter-relacionados e de como eles buscam equilíbrio dentro de um ambiente dinâmico. Ele introduziu conceitos como equifinalidade (a capacidade de alcançar um estado final semelhante a partir de diferentes condições iniciais) e destacou a importância dos sistemas abertos, que trocam energia com seu ambiente, ao contrário dos sistemas fechados abordados pela termodinâmica clássica. Esse entendimento de sistemas dinâmicos e interconectados ainda é aplicado na biologia, psicologia, ecologia e ciências sociais​                                                                                                (links acervo técnico e docs- Panarchy / Is Nature / Internet Archive )

  2. Conexão com as Teorias de Rupert Sheldrake: Sheldrake, com sua teoria dos "campos morfogenéticos" e "ressonância mórfica", introduziu a ideia de que os seres vivos são influenciados por padrões de comportamento e desenvolvimento que residem em um campo de informações não-material. A teoria se alinha com a TGS em sua visão de interconectividade entre sistemas, mas expande a abordagem para incluir influências não-físicas e mais holísticas, sugerindo que o aprendizado e o comportamento podem ser "armazenados" em campos que transcendem os organismos individuais e influenciam o desenvolvimento futuro.

  3. A documentação e acervos científicos atuais, oferecem uma base sólida para relacionarmos as abordagens de Bertalanffy e Sheldrake em um contexto que combina biologia, psicologia e teorias de sistemas aplicados.

- Crônicas sistêmicas

Referências:

  1. Bertalanffy, Ludwig von. General System Theory: Foundations, Development, Applications. Este livro clássico de Bertalanffy é o fundamento da Teoria Geral dos Sistemas, abordando como sistemas complexos interagem e trocam informações e energia com seus ambientes. Bertalanffy desenvolve a noção de sistemas abertos, equifinalidade e a aplicação da TGS em várias disciplinas, como psicologia e biologia​ ( Panarchy ) 

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  2. Sheldrake, Rupert. A New Science of Life: The Hypothesis of Formative Causation. Neste livro, Sheldrake introduz sua teoria dos campos morfogenéticos e da ressonância mórfica, propondo que padrões de desenvolvimento e comportamento são influenciados por "memórias" coletivas que residem fora dos indivíduos, um conceito que se conecta à interconexão de sistemas, ampliando a TGS para incluir dimensões não-materialistas​  ( Internet Archive )

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  3. Capra, Fritjof. The Web of Life: A New Scientific Understanding of Living Systems. Capra explora a evolução da TGS e sua aplicabilidade moderna, discutindo as influências holísticas e interconexões entre os sistemas vivos e seus ambientes, o que relaciona a teoria de Bertalanffy às ideias de Sheldrake sobre ressonância​

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