quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

gozo

O conceito de gozo é um dos pilares da psicanálise, especialmente 
na obra de Jacques Lacan, diferenciando-se substancialmente do 
prazer freudiano.
Enquanto o prazer busca a homeostase, o equilíbrio, e evita a dor,
o gozo envolve satisfação paradoxal, repetição, dor e excessos.

Num "Mais-Além" do Princípio do Prazer
 Embora Freud não tenha usado o termo "gozo" com a mesma frequência 
que Lacan, ele lançou as bases para o conceito ao investigar o que está 
para além da busca por prazer. 

Pulsão de Morte (1920)
 Freud observou que os seres humanos repetem experiências dolorosas 
entre traumas e fracassos... Isso indica uma satisfação que não visa 
diretamente o prazer, mas sim, uma "tensão zero", inerte, 
uma pulsão de morte. 

Ganho Primário do Sintoma 
O sintoma inconsciente produz uma forma de satisfação (gozo) 
que o paciente não reconhece conscientemente, mas da qual ele 
dificilmente abre mão.

A Estruturação do Conceito
Lacan transforma o gozo em um conceito central, evoluindo-o ao 
longo do seu ensino, o gozo como Transgressão (Início) ligado à interdição. 
É a busca de uma satisfação absoluta e impossível (ligada ou ao incesto ou à  
- "Das Ding" a Coisa, o conceito central no Seminário 7 de Jacques Lacan, 
representa o Real no absoluto, como um objeto perdido e inalcançável, 
estruturante do desejo humano e situado além do princípio do prazer.), que 
é proibida pela lei do desejo.

Gozo vs. Prazer
O prazer é o limite; o gozo é o excesso que ultrapassa esse limite e
o gozo suspende a oposição simples entre prazer e desprazer.
Com a evolução da teoria, Lacan passa a ver o gozo como um resíduo 
da linguagem, um "mais-de-gozar" que se produz na relação do sujeito 
com o objeto a e com o Outro.
O Gozo Fálico e Gozo do Outro (Seminário 20) é limitado... ligado ao
significante, à linguagem e à castração, e então ao Gozo do Outro 
(ou Suplementar) é um gozo para além do falo, muitas vezes associado 
à posição feminina na sexuação, não limitado pela linguagem, e no 
'Gozo e Corpo', Lacan define o gozo, como a "única substância que a 
psicanálise admite", relacionada ao corpo.

Outras Abordagens como a de Klein e Winnicott, embora foquem mais nas 
relações objetais e na constituição do ego, a noção de repetição de experiências
de dor/prazer (pulsão de morte) também é relevante para a compreensão de
satisfações sintomáticas... E no Super EU Lacaniano, Lacan interpreta o imperativo 
categórico de Kant como um comando do Super EU, que exige um "imperativo 
de gozo" (goze!), transformando o gozo em uma dívida insuportável e gerando culpa.

As Diferenças:
Conceito              Foco                           Relação com a Dor         Objetivo
Prazer (Freud)  Princípio do Prazer (Homeostase) Evita a dor Equilíbrio, conforto
.
Gozo (Lacan) Além do Princípio do Prazer Mistura satisfação e dor Repetição, 
excesso, o "Mais-além"...

Então o gozo lacaniano é a "substância" que articula o sintoma e a pulsão 
de morte, representando o "mais-além" que mantém o sujeito preso à repetição 
de sua própria dor...

Na esquizoanálise, Gilles Deleuze e Félix Guattari explicitam e desenvolvem 
os conceitos de "gozo", reconfigurado e demonstrando como ele é em grande 
parte substituído ou subvertido pela noção de produção de desejo e pela
intensidade de fluxos. 
Enquanto a psicanálise lacaniana focará no gozo conformado como um excesso 
doloroso ligado à falta e à repetição (num "mais-de-gozar"), a esquizoanálise 
rejeita a ideia de que o desejo é movido pela carência ou que o gozo é um 
limite interdito.

Os pontos centrais sobre o gozo na perspectiva da esquizoanálise é desejo como 
Produção, e não como uma Falta, na esquizoanálise, o desejo não busca um 
objeto perdido (gozo), mas produz realidade através de "máquinas desejantes". 
O foco muda da "satisfação" (gozo) para a "potência" e a intensidade da vida.

Crítica à "Servidão Voluntária" aonde a esquizoanálise utiliza o conceito para 
questionar por que as massas lutam por sua própria servidão como se fosse a 
sua salvação (questão reichiana-espinosana), pois isso se refere a uma forma de
"gozo" masoquista que captura a subjetividade e a prende ao poder (microfascismo).

Gozo vs. Intensidade-  o gozo, para a esquizoanálise, muitas vezes é lido 
como um investimento libidinal passivo ou reativo, que "prende" o sujeito 
em arranjos sociais e estruturas fixas. A esquizoanálise, busca então liberar 
essa energia para "intensidades" ativas e criativas, que não se baseiam no 
sofrimento ou na repetição do mesmo.

A Desterritorialização do Gozo, tem como objetivo tirar o desejo da
 "camisa de força" do Édipo e da culpa (o gozo interdito da psicanálise...) 
e colocá-lo no plano de imanência, onde o desejo se preenche nos encontros,
produzindo novos modos de vida.

A análise do Desejo, olhando dentro dos caminhos da Psyche... 

 Assim a clínica esquizoanalítica busca mapear e fazer a cartografia 
dos "territórios" em que o sujeito vive, e ali criar novas  "máquinas de 
autoelaboração" e suas máquinas desejantes...(como arte, escrita, novas 
formas de laço social) para expressar 'o desejo'.

A-significante... o gozo esquizoanalítico é muitas vezes "innominável" , 
escapando da representação simbólica para habitar a sensação e a experiência 
direta em suas inscrições. Autêntico, é vivido.

A esquizoanálise além da psique analisará a 'economia libidinal-social',  
desvendando como o desejo é capturado pelos "agenciamentos", buscando 
transformar a "captura" desta subjetividade agenciada por gozos destrutivos, 
em um novo processo criativo, valorizando a produção de novas formas de 
vida e desejo ativo e uma autêntica e integral subjetividade. 
Eleva o gozo e isso coloca-o ao nível da realidade, e ali, pratica-se.

-crônicas sistêmicas

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