domingo, 22 de fevereiro de 2026

Dinâmicas de Engajamento Social- Uma Leitura Esquizoanalítica

Dinâmicas de Engajamento Social- Uma Leitura Esquizoanalítica

Compreendo a profundidade e a complexidade das atuais mudanças geopolíticas e sociais que apresentam-se no mundo todo, busco articular uma integração dos eixos teóricos e pressupostos deleuze-guattarianos e marxistas críticos, como alternativa...

 Máquinas Desejantes e Produção de Subjetividade

A esquizoanálise propõe que não somos sujeitos que desejam, mas desejos que produzem sujeitos. As "máquinas desejantes" operam como fluxos produtivos que se acoplam, cortam e recombinam em todas as direções, sem finalidade teleológica pré-estabelecida
multiplotcinema.com.br
. O inconsciente é como uma "usina" produtiva que funciona em toda parte: "Isso respira, isso aquece, isso come. Isso caga, isso fode"  
multiplotcinema.com.br
.
Neste registro, o engajamento social não emerge de uma "consciência de classe" pré-formada, mas de agenciamentos coletivos de enunciação que conectam fluxos desejantes a máquinas sociais. A subjetividade é vista como "uma dobra da tessitura das linhas que constituem nossas relações", unindo dimensão social e produção de si
www.scielo.br
.

 Territorialização, Desterritorialização e Luta de Classes

Os processos de territorialização (fixação de códigos, normas, identidades) e desterritorialização (fluxos que escapam, linhas de fuga) são centrais para compreender as lutas contemporâneas. O território é mais do que espaço geográfico, ali é reino, lugar "produzido espaço-temporalmente pelo exercício do poder de determinado grupo ou classe social"
www.redalyc.org
.
A reterritorialização opera como tentativa de recapturar fluxos desterritorializados, as novas identidades são forjadas, mas frequentemente sob a lógica do capital. Como alerta Saquet, as formas contemporâneas de territorialização propõem "fechamentos ou cercamentos" que nunca são totais, pois o fluxo desejante sempre escapa
periodicos.ufsm.br
.
No contexto do proletariado contemporâneo, isso significa que as novas identidades sociais surgem como potência de não-identidade, "proletariado é a nomeação política da força social de desdiferenciação identitária cujo reconhecimento pode desarticular por completo sociedades organizadas a partir da hipóstase das relações gerais de propriedade"
comunizar.com.ar

 O Proletariado como Classe Dissolutiva

Marx já indicava que o proletariado é a classe que "expressa, de per se, a dissolução de todas as classes"
comunizar.com.ar
. Isso significa que sua força política reside precisamente na indeterminação social:
"O proletário é desprovido de propriedade; sua relação com mulher e crianças não tem mais nada a ver com as relações da família burguesa; o trabalho industrial moderno [...] retirou dele todo caráter nacional. A lei, a moral, a religião são para ele preconceitos burgueses"
comunizar.com.ar
.
Essa "perda total da humanidade" (na lógica do capital) é, paradoxalmente, a condição para uma universalidade concreta, indivíduos "histórico-universais, empiricamente universais, em vez de indivíduos locais"
comunizar.com.ar
. A luta de classes, neste registro, é uma crítica à própria economia psíquica da propriedade e da personalidade.

 Agenciamentos, Micropolítica e Revolução Molecular

O conceito de revolução molecular, Guattari desenvolve para pensar as transformações   pela reorganização dos fluxos desejantes no nível infra-individual e infra-estrutural.
comunizar.com.ar
. Assim, a micropolítica opera nos agenciamentos cotidianos como escolas, fábricas, bairros, prisões, relações de gênero, práticas de cuidado.
"Nada de alisar, de totalizar os movimentos parciais para conectá-los sob um mesmo ponto de viragem. [...] O que conta não é a unificação autoritária, mas sobretudo uma enxameação ao infinito das máquinas desejantes"
comunizar.com.ar
.
Isso implica repensar o engajamento social como experimentação de agenciamentos coletivos que conectem lutas pontuais sem submetê-las a uma síntese centralizadora, e  evitando a adesão a programas ou identidades fixas.

 Assujeitamento e Linhas de Fuga: A Tarefa Esquizoanalítica

A esquizoanálise distingue dois polos de produção subjetiva no capitalismo:
Assujeitamento
Subjetivação
Fixação em identidades, papéis, códigos
Produção de singularidades, linhas de fuga
Submissão a máquinas sociais molarizadas
Agenciamentos moleculares, transversais
Desejo edipianizado, familiarizado
Desejo como produção social, política
A tarefa política, então, é cartografar como o desejo é capturado e experimentar agenciamentos que permitam sua reorientação revolucionária. Como afirmam Deleuze e Guattari, "a psicanálise fixa-se nos representantes imaginários e estruturais de reterritorialização, ao passo que a esquizoanálise segue os índices maquínicos de desterritorialização"
comunizar.com.ar
.

 Perspectivas para Revolucionar Relações de Trabalho e Poder

Pensar esquizoanaliticamente as hierarquias de poder implica em deslocar o foco da representação para a produção e perguntar-se quais agenciamentos produzem efeitos de classe?".  Operar na transversalidade e conectar lutas trabalhistas, de gênero, raciais, territoriais sem submetê-las a uma lógica unificadora que as esvazie. Investir na dimensão molecular e transformar não apenas estruturas macro, mas os modos de sensibilidade, linguagem, afeto que sustentam a dominação e Assumir a indeterminação como força política, o proletariado como "classe sem predicados" é como a condição para uma universalidade não-excludente.    
"A questão fundamental é a do desenvolvimento, da renovação e da articulação das lutas da vida cotidiana, das lutas do desejo; das lutas das classes operárias tradicionais; das lutas de emancipação nacionalistas e nacionalitárias" como sintetizou Guattari. comunizar.com.ar

Aprofundando... 

  • O Anti-Édipo (Deleuze & Guattari): fundamentos da esquizoanálise e crítica ao capitalismo.
  • A Revolução Molecular (Guattari): ensaios sobre micropolítica e subjetividade.
  • Micropolítica: Cartografias do Desejo (Guattari & Rolnik): aplicação clínica e política.
  • há bons artigos recentes sobre "proletariado como potência de não-identidade" (Safatle/Comunizar) e análises de territorialização (Haesbaert, Saquet).
- crônicas das lutas de classe

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