A Máquina de Apagar Humanos - Do Berço Vazio ao Corpo Medicado
Um Ensaio Esquizoanalítico sobre a Produção da Subjetividade e a Medicalização da Infância
A Economia do Vazio e a Produção do Humano como Butim
Na engrenagem do capitalismo tardio, a subjetividade é uma mercadoria em constante processo de fabricação. A percepção terapêutica de que estamos armadilhados socialmente ressoa com a crítica esquizoanalítica de Deleuze e de Guattari, aonde o sistema deseja os sujeitos apenas se forem como fluxos codificáveis...
O "apagamento do humano" que identificamos em diversas rotinas modernas, é a condição que dá as possibilidades para a continuidade do que já está posto. Para que a máquina corporativa e liberal-autocrata funcione bem, o desejo deve ser recortado, canalizado e sobretudo, silenciado. (invariavelmente quando autorizada a sua existência dissidente, esta deverá ser assujeitada e regulada, tal qual um produto comercializável ainda que inócuo).
Somos o butim... Nossos afetos, nossas potências de criação e nossa própria biologia são como combustíveis. A epidemia contemporânea, seja ela viral, psíquica ou social é o sintoma de um corpo social que foi esvaziado de suas capacidades de vinculação genuínas.
O sistema preconiza o assujeitamento, porque um sujeito que pergunta, e que sente excessivamente ou o que transborda os limites da produtividade, é um corpo estranho nesta linha de montagem social...
O Berço Vazio e a Posição Esquizóide como Defesa
'Aqui jaz'... um ponto crucial, a origem desse apagamento social, encontra lugar para perfeita residência no mundo do autista, entendido aqui não necessariamente como exclusiva condição neurobiológica a priori, mas mais como uma posição de natureza esquizóide forjada na dor e no calor dos abandonos. E o berço solitário da sociedade de proletários é uma máquina de produzir e replicar inércia e as ausências sociais e os silêncios.
Na esquizoanálise, interessam-nos as máquinas desejantes. Quando os pais, os mesmos herdeiros de um vazio civilizatório, assujeitados por uma história de abandono e incapacidade de expressão, acolhem um filho, eles transmitem além dos genes, os seus bloqueios. O "vazio do berço" é a primeira territorialização do medo. A criança aprende antes da linguagem, que o mundo não responde e que os gritos e o choro, não convocarão os outros.
Essa recorrência do abandono involuntário, circunstanciado pela economia e pela cultura, gera uma massa crítica de sujeitos que sistemicamente aprenderam a se retrair na falta. Há um vazio que deveria ter sido ocupado pelas relações e afetos e dinâmicas de comunicação pessoal naturais para a sobrevivência, a desinformação e as inabilidades fatidicamente assujeitadas . A "posição esquizóide" surge aqui como uma defesa necessária, natural por recorrência formadora, ausência e inércia são o que há inscrito como resposta ao mundo, essencialmente uma 'habilidade formatada'... pois se o exterior é hostil ou indiferente, o investimento libidinal recua para o próprio corpo. Cria-se um Corpo sem Órgãos (CsO) pleno de tensão, mas vazio de encontros. Esse traço preponderante, herdado historicamente, funciona como a cicatriz de uma falha no agenciamento social de cuidado, traspassando lugar de patologia individual.
A Escola, o Diagnóstico e a Tecnologia do Corpo
E é neste terreno árido que a semente do diagnóstico contemporâneo germina, quando essa criança, marcada pelo retraimento ou pela agitação (esta última muitas vezes, um grito desesperado por conexão), chega à escola, ela encontra outra máquina, que é a máquina de ensino-aprendizagem industrial... forma, informacional... Esta máquina não vai tolerar os desvios, nem os tempos singulares, o corpo que não se senta, ou acomoda, nem o olhar que não foca no quadro, no agendamento, ela quer o que ali se assenta, conformado...
Aqui então é que entra a questão central do debate psicanalítico contemporâneo, sobre esta explosão de classificações diagnósticas, (e que mudam constantemente de acordo com algumas demandas)em especial o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Sob a ótica esquizoanalítica, o diagnóstico é em si, um ato político, e ultrapassa a descrição clínica,.
Listo as principais mudanças na classificação do TDAH ao longo do tempo:
- Início do Século XX (1902): George Still descreveu uma "defeito de conduta moral" em crianças, focando na inquietação e falta de atenção, sem evidência física de lesão.
- Décadas de 1930 a 1950: Predominou o termo "lesão cerebral mínima" ou "disfunção cerebral mínima", associando a agitação a uma suposta lesão orgânica.
- DSM-II (1968): Introdução do termo "reação hipercinética da infância", com ênfase na hiperatividade, sem foco principal no déficit de atenção.
- DSM-III (1980): Passou a ser chamado de "Transtorno de Déficit de Atenção (TDA)", com ou sem hiperatividade. Pela primeira vez, a atenção foi destacada como sintoma principal.
- DSM-III-R (1987): Renomeado para "Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade - (TDAH)", consolidando a tríade: desatenção, hiperatividade e impulsividade.
- DSM-IV (1994): Definiu três subtipos: predominantemente desatento, predominantemente hiperativo-impulsivo e tipo combinado.
- DSM-5 (2013) e DSM-5-TR (2022): O TDAH foi reclassificado como um transtorno do neurodesenvolvimento, com os "subtipos" passando a ser chamados de "apresentações", e aumentou a idade de início dos sintomas de 7 para 12 anos.
- CID-11 (Atual): Alinhou-se ao DSM-5, incluindo apresentações menos graves e garantindo o código F90 para TDAH.
Ao nomear a criança como "TDAH", o sistema opera uma conversão alquímica e transforma um impasse relacional, institucional e político em uma falha química e individual...
A Estigmatização focará situar a criança sob o signo da "anormalidade", e esta é uma forma de micro-fascismo cotidiano. Isola-se o problema no corpo do ser, no caso, da criança para que a escola, a família e o Estado não precisem se questionar.A Legitimação da Patologia- Justificativas de ordem escolar -regimentais ("ele não aprende como os outros") buscam legitimar a intervenção médica. A dificuldade de adaptação à norma torna-se a descrição e sintoma de doença e estigma.
Acontece a Medicalização Precoce... A consequência direta é a introdução de tecnologias químicas no corpo infantil, a espontaneidade viva foi trocada pelas regras, o sistema prova que funciona, pois resolve-se e lucra-se.
A Pacificação dos Afetos e a Continuidade do Sistema...
O medicamento, neste contexto, atua como uma tecnologia de controle dos corpos, o sofrimento ou a necessidade de cuidado potencializam a percepção sobre necessidade de questionar para que serve esse cuidado neutralizador. A medicação, quando usada para "pacificar" reações emocionais e psíquicas que são, em essência, respostas a um ambiente hostil, serve para tornar o corpo compatível com a demanda de produção. Chancela um cárcere.
Uma criança "pacificada" quimicamente é uma criança que não perturba a aula, que não questiona a autoridade, que não chora o abandono. Ela se torna, finalmente, uma peça funcional na engrenagem. O "sucesso corporativo" da sociedade liberal depende dessa docilidade. O diagnóstico, portanto, é a etiqueta que permite a entrada do corpo no fluxo produtivo, limpo de suas arestas desejantes.
A linguagem que se estabelece a partir disso é uma linguagem de gestão de riscos. As famílias, já assujeitadas e culpabilizadas, abraçam o diagnóstico como uma tábua de salvação, pois é menos doloroso culpar a neuroquímica do que enfrentar o abismo do abandono histórico e a falência dos vínculos. O código de conduta local se ajusta e não se acolhe mais o sofrimento, gerencia-se apenas sintoma.
Por uma Clínica da Resistência
A esquizoanálise nos convida a mapear os agenciamento e ir além dos significados ( e 'diagnósticos'). Quem se beneficia de fato com esse diagnóstico? E quais os fluxos que estão sendo ali, cortados? ( qual o seu porquê?) Que corpos estão sendo produzidos? O número crescente de diagnósticos infantis é uma epidemia de inadequação ao sistema, e sintoma de uma sociedade que perdeu sua capacidade de lidar com as diferenças, com os tempos lentos, com os corpos agitados e com os solitários silêncios dos berços.
Como terapeutas, pensadores, educadores, cidadãos e sobretudo humanos, o nosso desafio é recusar esta cumplicidade com uma máquina de apagar humanos e também:
Desmedicalizar os espaços sociais e entender que a agitação ou o isolamento da criança podem ser leituras políticas de um ambiente que não a comporta nem acolhe.Acolher o vazio e trabalhar com os pais para atravessar os próprios vazios herdados, permitindo assim que novos fluxos de afeto circulem no berço, que antes era solitário...
E resistir às normas e compreender que a "saúde" preconizada pelo sistema é inalcançável e a saúde psíquica real é ou pode ser caótica, tem seus fluxos próprios, e é como um encontro consigo, sempre é como desvendamento, descoberta, como aposta e risco...
O mundo autista-esquizóide aonde nos inscrevem é um resultado, e ainda é um ponto de fuga... o "mundo Autista" o "mundo esquizóide" gerado pelo abandono sócio cultural e histórico é potente e autêntico, real e lida também como metáfora social e marca condição de existência( é resistência) necessariamente afirma as neurodivergências biológicas. E nos lembra que muitos diagnósticos de autismo hoje podem estar capturando crianças que estão, acima de tudo, socialmente isoladas e sem laços. A clínica deve ter sensibilidade para não confundir déficit estrutural com déficit de acolhimento.
Se o sistema precisa do apagamento para continuar, a nossa tarefa clínica e pessoal é acender a luz sobre esses mecanismos, e buscar transformar o lugar classificado, o "paciente diagnosticado" em "sujeito de desejo", recuperando a narrativa do abandono e devolvendo-a à sua origem política e histórica, pretendendo acolher a liberdade do ser para auto criar-se. Só assim rompemos as correntes de assujeitamentos e paramos de ser combustível para queimar em nome de um sucesso que, no fundo, é apenas a gestão eficiente da nossa própria extinção humana.
- crônicas das lutas de classe
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