sábado, 28 de fevereiro de 2026

invisibilidade

Verdadeiramente há poderes de invisibilidade.
Basta não estar num determinado lugar.
A humanidade toda tem.
Um sub-poder desta categoria, é o desdem.
Como estar num lugar, mas estar ausente.
Prerrogativas de quem é 'gente'?
Uma cópia, um algo falso...
Está representado, porém, não presente.
Sumiço, sem compromisso, omisso.
As ausências necessariamente
não escondem vontades.
E estar invisível, não é o
mesmo que estar ausente...
Para aqueles que sentem tua falta...
surpreendentemente, na verdade,
para estes, estás sempre presente...
ralleirias -Metateatro

Orixás e os dias da semana

Orixás e os dias da semana 

Na Umbanda e no Candomblé, cada dia da semana é regido por 
vibrações específicas de determinados Orixás, influenciando cultos, 
oferendas e pedidos. 
Embora haja variações entre terreiros, a relação mais comum é: 

Segunda-feira: Exu, Omolú/Obaluaê, Pretos Velhos
Foco: Limpeza, caminhos, saúde e cura.

Terça-feira: Ogum, Oxumaré
Foco: Abertura de caminhos, coragem, força e transformação.

Quarta-feira: Xangô, Iansã, Obá
Foco: Justiça, equilíbrio, ventos, raios e poder.

Quinta-feira: Oxóssi, Ossaim, Logun Edé
Foco: Fartura, conhecimento, busca e cura através das ervas.

Sexta-feira: Oxalá
Foco: Paz, harmonia, criação e brancura.

Sábado: Iemanjá, Oxum, Nanã (As Iabás - Orixás femininas)
Foco: Família, amoráguas, emoções e sabedoria.

Domingo: Oxalá, orixás da Luz (varia com a vertente)
Foco: Renovação e criatividade. 

Importante:
A relação com o dia da semana não determina, necessariamente, 
o "Orixá de cabeça" (o orixá principal) de uma pessoa. 
Essa revelação ocorre no desenvolvimento mediúnico.
Variações: Algumas casas de Candomblé podem inverter 
ou atribuir dias diferentes, especialmente com orixás como 
Iansã e Obá, que podem estar em dias distintos de Xangô 
em algumas tradições.
 - Crônicas sistêmicas (cosmogônicas)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A Máquina de Apagar Humanos - Do Berço Vazio ao Corpo Medicado...

A Máquina de Apagar Humanos - Do Berço Vazio ao Corpo Medicado

Um Ensaio Esquizoanalítico sobre a Produção da Subjetividade e a Medicalização da Infância

A Economia do Vazio e a Produção do Humano como Butim
Na engrenagem do capitalismo tardio, a subjetividade é uma mercadoria em constante processo de fabricação. A percepção terapêutica de que estamos armadilhados socialmente ressoa com a crítica esquizoanalítica de Deleuze e de Guattari, aonde o sistema deseja os sujeitos apenas se forem como fluxos codificáveis... 
O "apagamento do humano" que identificamos em diversas rotinas modernas, é a condição que dá as possibilidades para a continuidade do que já está posto. Para que a máquina corporativa e liberal-autocrata funcione bem, o desejo deve ser recortado, canalizado e sobretudo, silenciado. (invariavelmente quando autorizada a sua existência dissidente, esta deverá ser assujeitada e regulada, tal qual um produto comercializável ainda que inócuo).
Somos o butim... Nossos afetos, nossas potências de criação e nossa própria biologia são como combustíveis. A epidemia contemporânea, seja ela viral, psíquica ou social é o sintoma de um corpo social que foi esvaziado de suas capacidades de vinculação genuínas.                
O sistema preconiza o assujeitamento, porque um sujeito que pergunta, e que sente excessivamente ou o que transborda os limites da produtividade, é um corpo estranho nesta linha de montagem social...
 O Berço Vazio e a Posição Esquizóide como Defesa
'Aqui jaz'... um ponto crucial, a origem desse apagamento social, encontra lugar para perfeita residência no mundo do autista, entendido aqui não necessariamente como exclusiva condição neurobiológica a priori, mas mais como uma posição de natureza esquizóide forjada na dor e no calor dos abandonos. E o berço solitário da sociedade de proletários é uma máquina de produzir e replicar inércia e as ausências sociais e os silêncios.
Na esquizoanálise, interessam-nos as máquinas desejantes. Quando os pais, os mesmos herdeiros de um vazio civilizatório, assujeitados por uma história de abandono e incapacidade de expressão, acolhem um filho, eles transmitem além dos genes, os seus bloqueios. O "vazio do berço" é a primeira territorialização do medo. A criança aprende antes da linguagem, que o mundo não responde e que os gritos e o choro, não convocarão os outros.
Essa recorrência do abandono involuntário, circunstanciado pela economia e pela cultura, gera uma massa crítica de sujeitos que sistemicamente aprenderam a se retrair na falta. Há um vazio que deveria ter sido ocupado pelas relações e afetos e dinâmicas de comunicação pessoal naturais para a sobrevivência, a desinformação e as inabilidades fatidicamente assujeitadas . A "posição esquizóide" surge aqui como uma defesa necessária, natural por recorrência formadora, ausência e inércia são o que há inscrito como resposta ao mundo, essencialmente uma 'habilidade formatada'... pois se o exterior é hostil ou indiferente, o investimento libidinal recua para o próprio corpo. Cria-se um Corpo sem Órgãos (CsO) pleno de tensão, mas vazio de encontros. Esse traço preponderante, herdado historicamente, funciona como a cicatriz de uma falha no agenciamento social de cuidado, traspassando lugar de patologia individual.
 A Escola, o Diagnóstico e a Tecnologia do Corpo
E é neste terreno árido que a semente do diagnóstico contemporâneo germina, quando essa criança, marcada pelo retraimento ou pela agitação (esta última muitas vezes, um grito desesperado por conexão), chega à escola, ela encontra outra máquina, que é a máquina de ensino-aprendizagem industrial... forma, informacional... Esta máquina não vai tolerar os desvios, nem os tempos singulares, o corpo que não se senta, ou acomoda, nem o olhar que não foca no quadro, no agendamento, ela quer o que ali se assenta, conformado...
Aqui então é que entra a questão central do debate psicanalítico contemporâneo, sobre esta explosão de classificações diagnósticas, (e que mudam constantemente de acordo com algumas demandas)em especial o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Sob a ótica esquizoanalítica, o diagnóstico é em si, um ato político, e ultrapassa a descrição clínica,. 
Listo as principais mudanças na classificação do TDAH ao longo do tempo: - Início do Século XX (1902): George Still descreveu uma "defeito de conduta moral" em crianças, focando na inquietação e falta de atenção, sem evidência física de lesão. - Décadas de 1930 a 1950: Predominou o termo "lesão cerebral mínima" ou "disfunção cerebral mínima", associando a agitação a uma suposta lesão orgânica. - DSM-II (1968): Introdução do termo "reação hipercinética da infância", com ênfase na hiperatividade, sem foco principal no déficit de atenção. - DSM-III (1980): Passou a ser chamado de "Transtorno de Déficit de Atenção (TDA)", com ou sem hiperatividade. Pela primeira vez, a atenção foi destacada como sintoma principal. - DSM-III-R (1987): Renomeado para "Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade - (TDAH)", consolidando a tríade: desatenção, hiperatividade e impulsividade. - DSM-IV (1994): Definiu três subtipos: predominantemente desatento, predominantemente hiperativo-impulsivo e tipo combinado. - DSM-5 (2013) e DSM-5-TR (2022): O TDAH foi reclassificado como um transtorno do neurodesenvolvimento, com os "subtipos" passando a ser chamados de "apresentações", e aumentou a idade de início dos sintomas de 7 para 12 anos. - CID-11 (Atual): Alinhou-se ao DSM-5, incluindo apresentações menos graves e garantindo o código F90 para TDAH.
Ao nomear a criança como "TDAH", o sistema opera uma conversão alquímica e transforma um impasse relacional, institucional e político em uma falha química e individual...
A Estigmatização focará situar a criança sob o signo da "anormalidade", e esta é uma forma de micro-fascismo cotidiano. Isola-se o problema no corpo do ser, no caso, da criança para que a escola, a família e o Estado não precisem se questionar.
A Legitimação da Patologia- Justificativas de ordem escolar -regimentais ("ele não aprende como os outros") buscam legitimar a intervenção médica. A dificuldade de adaptação à norma torna-se a descrição e sintoma de doença e estigma.
Acontece a Medicalização Precoce... A consequência direta é a introdução de tecnologias químicas no corpo infantil, a espontaneidade viva foi trocada pelas regras, o sistema prova que funciona, pois resolve-se e lucra-se.
 A Pacificação dos Afetos e a Continuidade do Sistema...
O medicamento, neste contexto, atua como uma tecnologia de controle dos corpos, o sofrimento ou a necessidade de cuidado potencializam a percepção sobre necessidade de questionar para que serve esse cuidado neutralizador. A medicação, quando usada para "pacificar" reações emocionais e psíquicas que são, em essência, respostas a um ambiente hostil, serve para tornar o corpo compatível com a demanda de produção. Chancela um cárcere.
Uma criança "pacificada" quimicamente é uma criança que não perturba a aula, que não questiona a autoridade, que não chora o abandono. Ela se torna, finalmente, uma peça funcional na engrenagem. O "sucesso corporativo" da sociedade liberal depende dessa docilidade. O diagnóstico, portanto, é a etiqueta que permite a entrada do corpo no fluxo produtivo, limpo de suas arestas desejantes.
A linguagem que se estabelece a partir disso é uma linguagem de gestão de riscos. As famílias, já assujeitadas e culpabilizadas, abraçam o diagnóstico como uma tábua de salvação, pois é menos doloroso culpar a neuroquímica do que enfrentar o abismo do abandono histórico e a falência dos vínculos. O código de conduta local se ajusta e não se acolhe mais o sofrimento, gerencia-se apenas sintoma.
Por uma Clínica da Resistência
A esquizoanálise nos convida a mapear os agenciamento e ir além dos significados ( e 'diagnósticos'). Quem se beneficia de fato com esse diagnóstico? E quais os fluxos que  estão sendo ali, cortados? ( qual o seu porquê?) Que corpos estão sendo produzidos? O número crescente de diagnósticos infantis é uma epidemia de inadequação ao sistema, e sintoma de uma sociedade que perdeu sua capacidade de lidar com as diferenças, com os tempos lentos, com os corpos agitados e com os solitários silêncios dos berços.
Como terapeutas, pensadores, educadores, cidadãos e sobretudo humanos, o nosso  desafio é recusar esta cumplicidade com uma máquina de apagar humanos e também:
Desmedicalizar os espaços sociais e entender que a agitação ou o isolamento da criança podem ser leituras políticas de um ambiente que não a comporta nem acolhe.
Acolher o vazio e trabalhar com os pais para atravessar os próprios vazios herdados, permitindo assim que novos fluxos de afeto circulem no berço, que antes era solitário...
E resistir às normas e compreender que a "saúde" preconizada pelo sistema é inalcançável e a saúde psíquica real é ou pode ser caótica, tem seus fluxos próprios, e é como um encontro consigo, sempre é como desvendamento, descoberta, como aposta e risco...
O mundo autista-esquizóide aonde nos inscrevem é um resultado, e ainda é um ponto de fuga... o "mundo Autista" o "mundo esquizóide" gerado pelo abandono sócio cultural e histórico é potente e autêntico, real e lida também como metáfora social e marca condição de existência( é resistência) necessariamente afirma as neurodivergências biológicas. E nos lembra que muitos diagnósticos de autismo hoje podem estar capturando crianças que estão, acima de tudo, socialmente isoladas e sem laços. A clínica deve ter sensibilidade para não confundir déficit estrutural com déficit de acolhimento
Se o sistema precisa do apagamento para continuar, a nossa tarefa clínica e pessoal é acender a luz sobre esses mecanismos, e buscar transformar o lugar classificado, o "paciente diagnosticado" em "sujeito de desejo", recuperando a narrativa do abandono e devolvendo-a à sua origem política e histórica, pretendendo acolher a liberdade do ser para auto criar-se. Só assim rompemos as correntes de assujeitamentos e paramos de ser combustível para queimar em nome de um sucesso que, no fundo, é apenas a gestão eficiente da nossa própria extinção humana. 
- crônicas das lutas de classe 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Dinâmicas de Engajamento Social- Uma Leitura Esquizoanalítica

Dinâmicas de Engajamento Social- Uma Leitura Esquizoanalítica

Compreendo a profundidade e a complexidade das atuais mudanças geopolíticas e sociais que apresentam-se no mundo todo, busco articular uma integração dos eixos teóricos e pressupostos deleuze-guattarianos e marxistas críticos, como alternativa...

 Máquinas Desejantes e Produção de Subjetividade

A esquizoanálise propõe que não somos sujeitos que desejam, mas desejos que produzem sujeitos. As "máquinas desejantes" operam como fluxos produtivos que se acoplam, cortam e recombinam em todas as direções, sem finalidade teleológica pré-estabelecida
multiplotcinema.com.br
. O inconsciente é como uma "usina" produtiva que funciona em toda parte: "Isso respira, isso aquece, isso come. Isso caga, isso fode"  
multiplotcinema.com.br
.
Neste registro, o engajamento social não emerge de uma "consciência de classe" pré-formada, mas de agenciamentos coletivos de enunciação que conectam fluxos desejantes a máquinas sociais. A subjetividade é vista como "uma dobra da tessitura das linhas que constituem nossas relações", unindo dimensão social e produção de si
www.scielo.br
.

 Territorialização, Desterritorialização e Luta de Classes

Os processos de territorialização (fixação de códigos, normas, identidades) e desterritorialização (fluxos que escapam, linhas de fuga) são centrais para compreender as lutas contemporâneas. O território é mais do que espaço geográfico, ali é reino, lugar "produzido espaço-temporalmente pelo exercício do poder de determinado grupo ou classe social"
www.redalyc.org
.
A reterritorialização opera como tentativa de recapturar fluxos desterritorializados, as novas identidades são forjadas, mas frequentemente sob a lógica do capital. Como alerta Saquet, as formas contemporâneas de territorialização propõem "fechamentos ou cercamentos" que nunca são totais, pois o fluxo desejante sempre escapa
periodicos.ufsm.br
.
No contexto do proletariado contemporâneo, isso significa que as novas identidades sociais surgem como potência de não-identidade, "proletariado é a nomeação política da força social de desdiferenciação identitária cujo reconhecimento pode desarticular por completo sociedades organizadas a partir da hipóstase das relações gerais de propriedade"
comunizar.com.ar

 O Proletariado como Classe Dissolutiva

Marx já indicava que o proletariado é a classe que "expressa, de per se, a dissolução de todas as classes"
comunizar.com.ar
. Isso significa que sua força política reside precisamente na indeterminação social:
"O proletário é desprovido de propriedade; sua relação com mulher e crianças não tem mais nada a ver com as relações da família burguesa; o trabalho industrial moderno [...] retirou dele todo caráter nacional. A lei, a moral, a religião são para ele preconceitos burgueses"
comunizar.com.ar
.
Essa "perda total da humanidade" (na lógica do capital) é, paradoxalmente, a condição para uma universalidade concreta, indivíduos "histórico-universais, empiricamente universais, em vez de indivíduos locais"
comunizar.com.ar
. A luta de classes, neste registro, é uma crítica à própria economia psíquica da propriedade e da personalidade.

 Agenciamentos, Micropolítica e Revolução Molecular

O conceito de revolução molecular, Guattari desenvolve para pensar as transformações   pela reorganização dos fluxos desejantes no nível infra-individual e infra-estrutural.
comunizar.com.ar
. Assim, a micropolítica opera nos agenciamentos cotidianos como escolas, fábricas, bairros, prisões, relações de gênero, práticas de cuidado.
"Nada de alisar, de totalizar os movimentos parciais para conectá-los sob um mesmo ponto de viragem. [...] O que conta não é a unificação autoritária, mas sobretudo uma enxameação ao infinito das máquinas desejantes"
comunizar.com.ar
.
Isso implica repensar o engajamento social como experimentação de agenciamentos coletivos que conectem lutas pontuais sem submetê-las a uma síntese centralizadora, e  evitando a adesão a programas ou identidades fixas.

 Assujeitamento e Linhas de Fuga: A Tarefa Esquizoanalítica

A esquizoanálise distingue dois polos de produção subjetiva no capitalismo:
Assujeitamento
Subjetivação
Fixação em identidades, papéis, códigos
Produção de singularidades, linhas de fuga
Submissão a máquinas sociais molarizadas
Agenciamentos moleculares, transversais
Desejo edipianizado, familiarizado
Desejo como produção social, política
A tarefa política, então, é cartografar como o desejo é capturado e experimentar agenciamentos que permitam sua reorientação revolucionária. Como afirmam Deleuze e Guattari, "a psicanálise fixa-se nos representantes imaginários e estruturais de reterritorialização, ao passo que a esquizoanálise segue os índices maquínicos de desterritorialização"
comunizar.com.ar
.

 Perspectivas para Revolucionar Relações de Trabalho e Poder

Pensar esquizoanaliticamente as hierarquias de poder implica em deslocar o foco da representação para a produção e perguntar-se quais agenciamentos produzem efeitos de classe?".  Operar na transversalidade e conectar lutas trabalhistas, de gênero, raciais, territoriais sem submetê-las a uma lógica unificadora que as esvazie. Investir na dimensão molecular e transformar não apenas estruturas macro, mas os modos de sensibilidade, linguagem, afeto que sustentam a dominação e Assumir a indeterminação como força política, o proletariado como "classe sem predicados" é como a condição para uma universalidade não-excludente.    
"A questão fundamental é a do desenvolvimento, da renovação e da articulação das lutas da vida cotidiana, das lutas do desejo; das lutas das classes operárias tradicionais; das lutas de emancipação nacionalistas e nacionalitárias" como sintetizou Guattari. comunizar.com.ar

Aprofundando... 

  • O Anti-Édipo (Deleuze & Guattari): fundamentos da esquizoanálise e crítica ao capitalismo.
  • A Revolução Molecular (Guattari): ensaios sobre micropolítica e subjetividade.
  • Micropolítica: Cartografias do Desejo (Guattari & Rolnik): aplicação clínica e política.
  • há bons artigos recentes sobre "proletariado como potência de não-identidade" (Safatle/Comunizar) e análises de territorialização (Haesbaert, Saquet).
- crônicas das lutas de classe