quinta-feira, 30 de julho de 2015

algo sagrado.

O isolamento é uma forma grosseira de poder.
Não tolero mais multidões...
Já orquestrei muitas, conheço-as bem...
Por isto, sou agora uma espécie de rei deus eremita...

Meu domínio, baseia-se numa tradição herdada
duma coletividade possuidora de entendimentos
sutis, mas perenes.

Assim, ele se estende para além da razão ordinária,
e é quase como se fosse secreto...

Então, poucas palavras soam aqui, e, articulo o som,
como quem faz dádivas mágicas. E cada vez, tudo
chacoalha, até às mais impensáveis frequências.

Palavras? São súditas...

Uma coletividade, não são palavras?
No meu feudo eu às escolho!
E isto, só enquanto eu for ainda
um vassalo do tempo...

Ao sentido, monto-o em pelo, guio pela crina.

Corro em disparada, na beirada da razão, vou paleteando o
entendimento, cercando, e isto pode ser bastante perigoso, pois às vezes
ele é raso, e escapa, levando as percepções prum campo desconhecido,
onde elas podem até quebrar uma perna, deixando-as mancas e
incapacitadas para lidarem bem com as lógicas mais selvagens...

Já acho uma responsabilidade insuportável
carregar sentidos alheios e criar mundos com
estes moldes prontos...

Palavras? São intrusas, e matreiras, fazem de conta, e
contam besteiras, e o pior, carregam móveis vontades...

Mas, não aqui,
aqui só eu autorizo os mundos.
Aqui não quero.

É por isto, que eu prefiro ficar aonde tenho poder...
Daí, eu atravesso tudo, desfaço-me de mim, abarco o todo
superando o nada, na sua essência.

Faço assim, dum silêncio, algo sagrado.

ralleirias -meta teatro



Imagem : Sookkol  - Luna

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