quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Preserva esta tua Maldade

(...)
Haviam nos trancado no alto do prédio,
como não havia outra alternativa, tentamos passar
ao outro prédio, nos equilibrando numa passagem de ligação
do sistema de caixas d'agua, mas acabamos encurralados no topo da estrutura...
Ficamos então sentados, na viga de sustentação de uma caixa d'água.

Víamos a multidão irada, num embate, na correria típica de um protesto
ao final da tarde ...Bombas de efeito moral, balas de borracha
cavalos e soldados,  atacando estudantes e mestres, velhos e moços,
mesmo as crianças, sem piedade.

Agora então, ao pararmos ali,.  ele transformara-se em Belial, mas,
estava ainda sorrindo, e me disse daí, que era assim, como formigas,
que nos via sempre, e que embora não tão significantes como massa,
e turba, eramos individualmente divertidos, justamente por sermos arrogantes,
pretensiosos, estúpidos e belicosos...

'São tão frágeis, mas tão perigosos', me disse...

--- 'Cada um, com seu o mini mundo, e seus mini infernos'...

E então curioso, perguntei à ele porque estava agora como Belial, ele provocara
tudo aquilo ou foi pelo motivo inverso que tinha se transformado?

Me disse que não poderia referir-se as nossas vilanias sem acessar esta chave...

Retruquei, - Vilania? Que vilania temos? Somos pobres ignorantes,
perdidos e desamparados...e embora eu concorde que sim, em parte,
carregamos um enorme potencial para maldade, mas o contrário também
é verdadeiro, o amor  em nós e, principalmente nossa ingenuidade,
podem ser infinitos...

Apenas riu, acho que a sua expressão diabólica
também fazia o riso soar horripilante... forçou uma gíria usando a minha voz...

D---'Tu tá viajando'!...
O riso macabramente contagiante, e o fato da voz soar quase igual,
fez eu rir também...

Continuou-

D--- Vi coisas, vejo coisas, sei dos desdobramentos possíveis, e
te digo, que tu não compreende, pois não tem minha capacidade
de enxergar o que vocês chamam de futuro, eu vejo desdobramentos
dum agora múltiplo, e quase todos apontam pros mesmos lugares...

Para o fim, será quando então, eu vou experimentar o equivalente a uma ressaca
de uma grande festa, e depois deste tempo, vai ficar muito chato tudo isto aqui...

--As suas faltas, eu vou sentir!...disse-me sorrindo.

---Mas, fica tranquilo, tens ainda um bom tempo na condição
de desdobramento nesse ente que és agora...

E--- Fico contente... tenho é? E quanto?

D--- Teus caminhos são múltiplos, em todos eles, será quase o 'meso' tempo...
Me diz o que tu gostaria de fazer, e então, te digo se a tua escolha vai te
dar, daí podes optar, por uma das mais longas de tuas caminhadas...
O que tu queres? (sorrindo)

E --- O que talvez eu queira? Neste tempo curto que me resta?

D--- Tudo bem, te digo então... nenhum dos teus possíveis
tempos será curto! Mas há uma ironia oculta que não conto, aí...

E--- Opa! Que bom! Tudo bem...

D--- Bom é?! - riu tenebrosamente ...
Bom e mau, sabemos, podem ser pontos de vista, certo?...

Um helicóptero, de um canal de TV, que fazia cobertura dos protestos
passou e até parecia que nos viam, ele circula o prédio, e então notamos
que estavam filmando o mesmo cruzamento o qual olhávamos.

Voltamos ao assunto...

E--- Talvez queira agora, conhecer uma mulher com uma boa
cabeça e de preferência, gostosa... Também pode ser, que eu tente amar
indiscriminadamente e sem medos, a própria humanidade, talvez eu me
transforme num monge, ou algo do tipo...
Mesmo que a humanidade acabe, talvez, seja por isto mesmo, bastante válido
ajudar de alguma forma...  à diminuir um pouco toda esta loucura, talvez ajudar
nestas questões do auto controle pra aumentar a satisfação e felicidade das pessoas...
tentar diminuir a maldade e principalmente os maus...

 Me respondeu falando com a imitação coloquial de minha voz.

D ---Sim, já tô vendo... mais um santo... mais um mártir... ótimo, se é assim,
apenas fica longe da fogueiras, dos pregos e das cruzes...pois dai, é que tu vais
conhecer de verdade a tal humanidade...

Intervenho na fala.

E --- Santo! Não, sem exageros, mas o auto controle é uma coisa que me
agrada, e a humanidade pode parecer perversa, mas,  visivelmente é mais
assim como uma criança mimada... ou como se fosse um filhote desajeitado
que sem noção bagunça e estraga coisas... e espalha merda por toda parte...
e pro qual não cabe punição, mas, talvez sim, algo como orientação...ajuda...
e... tempo.

Com a voz tenebrosa de Belial.

D --- Veja, é como o próprio, o buda..! Quanto de paciência tu é capaz de ter
com o ódio..? Já vi, quando tu experimentou o ódio dos outros no teu passado,
e bem me lembro como foi tua resposta,  definitivamente não foi com amor...

E --- Paciência não é necessariamente um atributo relacionado ao amor,
mas os dois juntos parecem ser uma base mais apropriada, onde se pode construir
algo muito bom, mesmo que, por um tempo não muito grande, mas, vale a
experiência, me parece... eu sei bem disso, o que digo, acho que já funcionou pra mim...
sou um deles... Talvez seja possível superar a estupidez e a maldade... em parte...

e fazendo novamente imitação coloquial de minha voz.

D --- Tu vai é te foder, e se tu não conseguir nada com essa bondade
e esse amor filosófico... quem e o quê, vai segurar a tua onda?

E --- é, mas olha só, as expectativas sobre sucessos perseguem quase
sempre as mesmas narrativas, em que o imaginário pode ser uma armadilha
engenhosa, com pequenos gatilhos nas decepções, que acionam a infelicidade
ao menor movimento fora do esperado... então, acho melhor fazer algo com
 o que tenho, sem esperar nada...
Além do mais, me sinto responsável pelas pessoas que eu amo,
mas, muito mais ainda, pelas quais me amam e esperam algo de mim...

E então, com uma expressão transtornada, ele dobrou de tamanho
e me falou:

D --- Me ouve com muita atenção:
Preserva essa tua maldade!
Mesmo que bem oculta, pois em algum momento
ela poderá ser a única coisa a teu favor...
Algo pra te levar pra frente, e pra te reerguer...

Se tu ainda não percebeu, o mundo se auto devora,
não vão faltar dentes afiados pra arrancar alguns dos pedaços,
do que te é mais precioso... Destas bugigangas que tu amealha
dia a dia, nessa tentativa de aplacar essa carência da tua alma
miserável, solitária e faminta...

E esses dentes vão estar quase sempre numa boca que era antes
amiga, e até, que tu já amou, desejou e já beijou...

E pega esses teus 'medinhos' de merda, e atiça até virarem ira...
Mas usa essa ira, então, com inteligência, ou ela vai se voltar
contra ti e a tua burrice...
E sempre que possível, deixa que se matem uns aos outros,
não compra estas brigas, pois quase sempre, elas são alucinações
e devaneios do ego destes idiotas...

Mas, esteja perto... tanto quanto possível, pra sentir o cheiro
da morte e do sangue... pra lembrar aonde tu poderia estar,
e também, caso demande, para que tu possas pisar nos pescoços
e chutar as caras destes miseráveis, mesmo quando já estiverem
se contorcendo no chão...

Não fica com pena, pois a tua hora também vai chegar,
e então, os teus ossos é que vão ser triturados,
e o guizado disforme da tua carcaça,
vai ser a comida dos vermes,
e tu vai voltar pra maldita merda,
que na verdade, tu sempre foi...

Uma merda na sola do sapato dos que te detestam...
Na sola do sapato de todo o resto da humanidade.
Me ouve com muita atenção:
Preserva essa tua maldade!

ralleirias - (Do rabo do diabo)  fragmento

Imagem: Alfonso Elola - "Organic Portrait I"

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