sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Os Doze Elos da Originação Interdependente como Máquinas Desejantes

Os Doze Elos da Originação Interdependente como Máquinas Desejantes:

Uma Leitura sob a luz esquizoanalítica e como prática Terapêutica...

A Introdução ao Fluxo, Desejo e Captura -
A síntese entre os Doze Elos e os conceitos de Deleuze & Guattari (máquinas desejantes, processos de subjetivação, territórios existenciais) nos permite enxergar o sofrimento como efeito de captura do desejo por identidades fixas (o "Eu" como ponto de resistência no fluxo).
A terapia, então, torna-se uma esquizoanálise do samsara – uma desmontagem das máquinas cármicas que repetem a produção de sofrimento.

A Gestalt do "Eu" nos Doze Elos

Fluxo, Pulsão e Hierarquias Sistêmicas

Integração entre Budismo, Deleuze-Guattari, Lacan e Psicologia Sistêmica

Este é uma prática como mapa terapêutico-existencial do "Eu" enquanto processo

Exploramos sua formação, movimentação e dissolução dentro do ciclo dos Doze Elos da Originação Dependente (Pratītyasamutpāda), integrando referências de várias tradições e abordagens.

Investigamos:  De onde vem → o passado condicionado; Onde está → o presente como campo de forças em disputa;  Para onde vai → o futuro enquanto projeção cármica.

Nesse percurso, incorporamos:

  • Os 7 pulsos neuropsicológicos (instintos arquetípicos);

  • Os 3 registros lacanianos (Real, Simbólico, Imaginário);

  • Os Três Animais da Roda da Vida (desejo, aversão, ignorância);

  • Os Seis Reinos de Existência (estágios psíquicos);

  • As funções da Trimurti hindu (Brahma, Vishnu, Shiva);

  • A lógica rizomática de Deleuze-Guattari (fluxo/desejo).


E o Mapa da Jornada do "Eu"...

1. Ignorância (Avidyā)

  • Origem: Vazio primordial não reconhecido — o Real como trauma inaugural.

  • Presente: O "Eu" é uma crosta imaginária sobre o caos.

  • Destino: Solidifica-se como separação: "Eu ≠ Mundo".

  • Pulso: Sobrevivência (medo de dissolver-se).

  • Trimurti: Brahma – criação do "Eu".

  • Reino Psíquico: Deuses (ilusão de eternidade).


2. Marcas Mentais (Saṃskāra)

  • Origem: Memórias não digeridas — traços cármicos.

  • Presente: Automatismos moldando o desejo simbólico.

  • Destino: Repetição de sofrimento.

  • Pulso: Repetição (segurança no conhecido).

  • Reino: Fantasmas (fome insaciável).

  • Lacan: O simbólico estruturando a cadeia significante.


3. Embrião de Identidade (Vijñāna)

  • Origem: Identificações familiares e culturais.

  • Presente: Persona como armadura contra o vazio.

  • Destino: Ego cristalizado.

  • Pulso: Pertencimento (medo da exclusão).

  • Reino: Humanos (consciência, dúvida, ética).

  • Lacan: O Imaginário em sua função de espelho.


4. Aspirações (Nāmarūpa)

  • Origem: A falta — o “objeto a” lacaniano.

  • Presente: A máquina desejante em pleno funcionamento.

  • Destino: Projeção de um eu ideal.

  • Pulso: Aquisição (ganho e perda como afeto).

  • Trimurti: Vishnu (sustentação do desejo).


5. Corpo e Sentidos (Ṣaḍāyatana)

  • Origem: Traumas e registros somáticos.

  • Presente: Campo sensório — prazer, dor, defesa.

  • Destino: Hipersensibilidade ou entorpecimento.

  • Pulso: Proteção (abrir ou fechar).

  • Reino: Animal (instinto e reatividade).


6. Contato (Sparśa)

  • Origem: Memórias afetivas de encontros.

  • Presente: Fronteira de contato (Gestalt: figura/fundo).

  • Destino: Fixação ou fuga.

  • Pulso: Conexão (amor ou rejeição).

  • Lacan: Simbolização do contato via linguagem.


7. Gosto/Desgosto (Vedanā)

  • Origem: Valores introjetados.

  • Presente: Julgamentos binários (prazer/dor).

  • Destino: Ambivalência e polarizações.

  • Pulso: Dominância (controle/submissão).

  • Trimurti: Shiva (dissolução do apego).


8. Desejo e Apego (Tṛṣṇā)

  • Origem: Feridas de abandono.

  • Presente: Compulsão por prazer.

  • Destino: Escravidão afetiva.

  • Pulso: Gozo (excitação/tédio).

  • Reino: Deuses (prazer intoxicante).


9. Sucesso e Identidade (Upādāna)

  • Origem: Busca por validação.

  • Presente: Autoimagem narcisicamente alimentada.

  • Destino: Crise de identidade (medo da queda).

  • Pulso: Status (ascensão/rebaixamento).

  • Lacan: Fantasias de completude.


10. Nascimento Psíquico (Bhava)

  • Origem: Reinvenção do "Eu" em novos ciclos.

  • Presente: Novas personas, novos enredos.

  • Destino: Repetição kármica ou transcendência.

  • Pulso: Sentido (transcendência e responsabilidade).

  • Reino: Humano (potência de escolha).


11. Ação no Mundo (Jāti)

  • Origem: Herança transgeracional (campo sistêmico).

  • Presente: Atos que perpetuam ou rompem ciclos.

  • Destino: Legado ou repetição.

  • Pulso: Criatividade (expressão e repressão).

  • Trimurti: Kali (ação transformadora radical).


12. Morte (Jarāmaraṇa)

  • Origem: Acúmulo de resistências.

  • Presente: Desmontagem da identidade.

  • Destino: Liberação ou reciclagem do ciclo.

  • Pulso: Rendição (entrega ou resistência).

  • Reino: Inferno (agonia da dissolução).

  • Lacan: Furo no Real.


Síntese em Tabela


EloLacanTrimurtiReinoPulso
IgnorânciaRealBrahmaDeusesSobrevivência
Marcas MentaisSimbólicoVishnuFantasmasRepetição
IdentidadeImaginárioShivaHumanosPertencimento
AspiraçõesObjeto aKaliAnimaisAquisição
...............

Técnicas Terapêuticas Integradas

1. Desidentificação pelo Real

Técnica de esvaziamento identitário — olhar para o vazio por trás do "Eu".

Quem ouve essa voz?

2. Resgate dos Pulsos Bloqueados

Ex: medo da morte → ritualização da impermanência (budismo tântrico + gestalt).

3. Cartografia dos Reinos Psíquicos

“Qual reino você habita agora?”
Ferramenta de mapeamento terapêutico arquetípico.

4. Gestalt dos Três Animais

Identificar desejo, aversão e ilusão nos conflitos atuais.

5. Cura Sistêmica pela Trimurti

  • Brahma: criar novas narrativas de si.

  • Vishnu: sustentar fluxos integrativos.

  • Shiva: dissolver padrões obsoletos.


O Jogo Sistêmico da Liberação

O “Eu” é uma construção transitória que Surge também da ignorância, ele estrutura-se no desejo, e se desfaz na morte. A terapia é a arte e o lugar de perceber esses enlaces, navegando para transpor os horizontes das fantasias, para liberar os fluxos, perceber-se na Gestalt, para ancorar no aqui-agora e lembrar que tudo isso é impermanente.

- Crônicas sistêmicas

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