Os Doze Elos da Originação Interdependente como Máquinas Desejantes:
A síntese entre os Doze Elos e os conceitos de Deleuze & Guattari (máquinas desejantes, processos de subjetivação, territórios existenciais) nos permite enxergar o sofrimento como efeito de captura do desejo por identidades fixas (o "Eu" como ponto de resistência no fluxo).
A terapia, então, torna-se uma esquizoanálise do samsara – uma desmontagem das máquinas cármicas que repetem a produção de sofrimento.
A Gestalt do "Eu" nos Doze Elos
Fluxo, Pulsão e Hierarquias Sistêmicas
Integração entre Budismo, Deleuze-Guattari, Lacan e Psicologia Sistêmica
Este é uma prática como mapa terapêutico-existencial do "Eu" enquanto processo
Exploramos sua formação, movimentação e dissolução dentro do ciclo dos Doze Elos da Originação Dependente (Pratītyasamutpāda), integrando referências de várias tradições e abordagens.
Investigamos: De onde vem → o passado condicionado; Onde está → o presente como campo de forças em disputa; Para onde vai → o futuro enquanto projeção cármica.
Nesse percurso, incorporamos:
Os 7 pulsos neuropsicológicos (instintos arquetípicos);
Os 3 registros lacanianos (Real, Simbólico, Imaginário);
Os Três Animais da Roda da Vida (desejo, aversão, ignorância);
Os Seis Reinos de Existência (estágios psíquicos);
As funções da Trimurti hindu (Brahma, Vishnu, Shiva);
A lógica rizomática de Deleuze-Guattari (fluxo/desejo).
E o Mapa da Jornada do "Eu"...
1. Ignorância (Avidyā)
Origem: Vazio primordial não reconhecido — o Real como trauma inaugural.
Presente: O "Eu" é uma crosta imaginária sobre o caos.
Destino: Solidifica-se como separação: "Eu ≠ Mundo".
Pulso: Sobrevivência (medo de dissolver-se).
Trimurti: Brahma – criação do "Eu".
Reino Psíquico: Deuses (ilusão de eternidade).
2. Marcas Mentais (Saṃskāra)
Origem: Memórias não digeridas — traços cármicos.
Presente: Automatismos moldando o desejo simbólico.
Destino: Repetição de sofrimento.
Pulso: Repetição (segurança no conhecido).
Reino: Fantasmas (fome insaciável).
Lacan: O simbólico estruturando a cadeia significante.
3. Embrião de Identidade (Vijñāna)
Origem: Identificações familiares e culturais.
Presente: Persona como armadura contra o vazio.
Destino: Ego cristalizado.
Pulso: Pertencimento (medo da exclusão).
Reino: Humanos (consciência, dúvida, ética).
Lacan: O Imaginário em sua função de espelho.
4. Aspirações (Nāmarūpa)
Origem: A falta — o “objeto a” lacaniano.
Presente: A máquina desejante em pleno funcionamento.
Destino: Projeção de um eu ideal.
Pulso: Aquisição (ganho e perda como afeto).
Trimurti: Vishnu (sustentação do desejo).
5. Corpo e Sentidos (Ṣaḍāyatana)
Origem: Traumas e registros somáticos.
Presente: Campo sensório — prazer, dor, defesa.
Destino: Hipersensibilidade ou entorpecimento.
Pulso: Proteção (abrir ou fechar).
Reino: Animal (instinto e reatividade).
6. Contato (Sparśa)
Origem: Memórias afetivas de encontros.
Presente: Fronteira de contato (Gestalt: figura/fundo).
Destino: Fixação ou fuga.
Pulso: Conexão (amor ou rejeição).
Lacan: Simbolização do contato via linguagem.
7. Gosto/Desgosto (Vedanā)
Origem: Valores introjetados.
Presente: Julgamentos binários (prazer/dor).
Destino: Ambivalência e polarizações.
Pulso: Dominância (controle/submissão).
Trimurti: Shiva (dissolução do apego).
8. Desejo e Apego (Tṛṣṇā)
Origem: Feridas de abandono.
Presente: Compulsão por prazer.
Destino: Escravidão afetiva.
Pulso: Gozo (excitação/tédio).
Reino: Deuses (prazer intoxicante).
9. Sucesso e Identidade (Upādāna)
Origem: Busca por validação.
Presente: Autoimagem narcisicamente alimentada.
Destino: Crise de identidade (medo da queda).
Pulso: Status (ascensão/rebaixamento).
Lacan: Fantasias de completude.
10. Nascimento Psíquico (Bhava)
Origem: Reinvenção do "Eu" em novos ciclos.
Presente: Novas personas, novos enredos.
Destino: Repetição kármica ou transcendência.
Pulso: Sentido (transcendência e responsabilidade).
Reino: Humano (potência de escolha).
11. Ação no Mundo (Jāti)
Origem: Herança transgeracional (campo sistêmico).
Presente: Atos que perpetuam ou rompem ciclos.
Destino: Legado ou repetição.
Pulso: Criatividade (expressão e repressão).
Trimurti: Kali (ação transformadora radical).
12. Morte (Jarāmaraṇa)
Origem: Acúmulo de resistências.
Presente: Desmontagem da identidade.
Destino: Liberação ou reciclagem do ciclo.
Pulso: Rendição (entrega ou resistência).
Reino: Inferno (agonia da dissolução).
Lacan: Furo no Real.
Síntese em Tabela
| Elo | Lacan | Trimurti | Reino | Pulso |
|---|---|---|---|---|
| Ignorância | Real | Brahma | Deuses | Sobrevivência |
| Marcas Mentais | Simbólico | Vishnu | Fantasmas | Repetição |
| Identidade | Imaginário | Shiva | Humanos | Pertencimento |
| Aspirações | Objeto a | Kali | Animais | Aquisição |
| ... | ... | ... | ... | ... |
Técnicas Terapêuticas Integradas
1. Desidentificação pelo Real
Técnica de esvaziamento identitário — olhar para o vazio por trás do "Eu".
Quem ouve essa voz?
2. Resgate dos Pulsos Bloqueados
Ex: medo da morte → ritualização da impermanência (budismo tântrico + gestalt).
3. Cartografia dos Reinos Psíquicos
“Qual reino você habita agora?”
Ferramenta de mapeamento terapêutico arquetípico.
4. Gestalt dos Três Animais
Identificar desejo, aversão e ilusão nos conflitos atuais.
5. Cura Sistêmica pela Trimurti
Brahma: criar novas narrativas de si.
Vishnu: sustentar fluxos integrativos.
Shiva: dissolver padrões obsoletos.
O Jogo Sistêmico da Liberação
O “Eu” é uma construção transitória que Surge também da ignorância, ele estrutura-se no desejo, e se desfaz na morte. A terapia é a arte e o lugar de perceber esses enlaces, navegando para transpor os horizontes das fantasias, para liberar os fluxos, perceber-se na Gestalt, para ancorar no aqui-agora e lembrar que tudo isso é impermanente.
- Crônicas sistêmicas
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