A Mente em Camadas:
Um Diálogo entre a Psicopatologia Estrutural e a Neuropsicanálise de Solms e Panksepp
Este é um exercício de tradução teórica. O diálogo entre a psicopatologia estrutural e relacional (com suas hierarquias defensivas, a busca pela integração do self e a crítica esquizoanalítica à identidade fixa) com a neuropsicanálise contemporânea de Mark Solms e Jaak Panksepp, que ancora a mente nos 7 sistemas afetivos primários subcorticais: BUSCA (SEEKING), MEDO-FUGA (FEAR), RAIVA-LUTA (RAGE), LUXÚRIA-GOZO (LUST), CUIDADO-AMAR (CARE), BRINCAR (PLAY) e PÂNICO-LUTO (PANIC/GRIEF).
Abaixo, estabelecemos o comparativo, operando sobre as teses e estruturas conceituais contidas na classificação hierárquica das defesas psíquicas, traduzidas para a linguagem da neurociência afetiva..
1. A Hierarquia das Defesas sob a Ótica da Regulação Afetiva
A tese da hierarquia defensiva (de níveis maduros a psicóticos, baseados na distorção da realidade) encontra um correlato biológico preciso na organização hierárquica do cérebro e na capacidade do córtex (especialmente o pré-frontal) de regular os impulsos subcorticais.
Defesas "Primitivas" ou Limítrofes (Cisão, Atuação, Negação)
Na neuropsicanálise, esses mecanismos são vistos além das falhas de integração de representações, são como colapsos na regulação cortical de sistemas afetivos primários em hiperativação. Quando os sistemas de MEDO (Fuga) ou RAIVA (Luta) são disparados de forma avassaladora, o córtex pré-frontal (responsável pela nuance, pelo "cinza") sofre uma inibição funcional ("sequestro da amígdala").
A "cisão" é, neurobiologicamente, o cérebro revertendo a um modo de sobrevivência binário (luta ou fuga), incapaz de processar a complexidade do sistema CUIDADO (Amar/Ser amado) simultaneamente à RAIVA. O acting out é a descarga motora direta do afeto subcortical sem a mediação inibitória do ego.
Defesas Neuróticas (Repressão, Intelectualização, Isolamento)
Representam uma regulação "top-down" (de cima para baixo) eficiente, porém rígida. O córtex pré-frontal consegue inibir a expressão comportamental dos sistemas primários, mas o afeto não é integrado. A intelectualização, por exemplo, é o neocórtex assumindo o controle para evitar que os circuitos do PÂNICO-LUTO ou RAIVA inundem a consciência. A energia está contida, mas o sistema afetivo primário continua ativo nos bastidores, gerando sintomas somáticos ou ansiedade livre.
Defesas Maduras ou Normais (Sublimação, Humor, Altruísmo)
Correspondem à integração neurobiológica ideal. O sistema de BUSCA (SEEKING), impulsionado pela dopamina e responsável pela curiosidade e expectativa, está ativo e em harmonia com os sistemas de CUIDADO e BRINCAR. O indivíduo não precisa suprimir o afeto; ele o canaliza através de redes corticais complexas, transformando a energia pulsional bruta em atividades simbólicas, criativas ou sociais, mantendo a homeostase sem negar a realidade.
2. A Díade Self-Objeto e os Sistemas de Apego
A tese de que a personalidade se organiza em díades (representação de si, do outro e um afeto que as une) e que a patologia grave resulta da falha em integrar essas díades, ganha nova luz com Panksepp.
O "afeto" que une a díade é uma ativação de circuitos específicos. A experiência de "ser amado" e "amar" está ancorada no sistema CARE (Cuidado materno/afiliativo, mediado por ocitocina e opioides endógenos).
A dor da perda ou rejeição desse objeto é a ativação do sistema PANIC/GRIEF (Pânico/Luto, mediado pela substância P).
A falha na integração (o que a teoria estrutural chama de manutenção da cisão) pode ser lida como uma incapacidade de co-ativação de circuitos. O cérebro do paciente não consegue sustentar a representação neural do "objeto bom" (que ativa CARE/PLAY) quando o sistema de RAIVA ou MEDO é disparado pela frustração.
A neuropsicanálise sugere que o tratamento deve focar não apenas na "interpretação" da díade, mas na regulação conjunta do estado afetivo, permitindo que o sistema de BUSCA (SEEKING) do paciente encontre segurança suficiente para tolerar a ambivalência sem entrar em colapso de PÂNICO.
3. Psicoterapia Focada na Transferência (TFP) vs. Neuropsicanálise
A tese da TFP de que é necessário para iniciar a análise, antes firmar um 'contrato rígido'(focar e comprometer-se com o propósito), amparando o confronto das contradições e interpretação para "unificar" o self e fortalecer o ego, é validada pela neuropsicanálise de Mark Solms, mas com um ajuste de foco:
O Contrato Terapêutico como Prótese Cortical
Para Solms, o "Id" (os sistemas afetivos primários) é a fonte primária da consciência, e o "Ego" é uma função inibitória e regulatória. Em pacientes com desregulação afetiva grave, o contrato rígido da TFP atua como um córtex pré-frontal auxiliar externo. Ele estabelece limites previsíveis que acalmam o sistema de MEDO e PÂNICO do paciente, criando um ambiente onde o sistema de BUSCA pode, aos poucos, explorar a relação sem medo de aniquilação.
A Interpretação como Integração Neural
Quando o terapeuta aponta a contradição da transferência (ex: "ora me vê como salvador, ora como algoz"), ele está conduzindo o cérebro do paciente a manter duas representações aparentemente conflitantes na memória de trabalho simultaneamente. Neurobiologicamente, isso estimula a formação de novas conexões sinápticas entre o córtex pré-frontal medial (autorreflexão) e a amígdala/ínsula (processamento afetivo), promovendo a verdadeira "integração" que a TFP busca, evitando impor supressão intelectual.
4. Esquizoanálise (Fluxo e Desterritorialização) vs. A Necessidade Biológica de Homeostase
Aqui reside o ponto de maior atrito teórico. A tese esquizoanalítica de que a "estrutura fixa" é opressiva e de que se deve buscar a desterritorialização, as linhas de fuga e a multiplicidade do desejo, colide com os achados da neurociência afetiva sobre a necessidade vital de regulação.
O Risco do Fluxo Desregulado
Panksepp e Solms demonstrariam que, embora os sistemas de BUSCA e BRINCAR (PLAY) sejam essenciais para a criatividade, a liberdade e a "desterritorialização", eles não podem operar de forma sustentada sem a modulação dos sistemas de CUIDADO e sem os limites inibitórios do córtex.
A Crítica Neuropsicanalítica à Esquizoanálise
Incentivar um psiquismo já fragmentado (com defesas primitivas) a "soltar" as amarras da identidade e abraçar o caos, sem antes estabelecer uma base segura de regulação afetiva, corre o risco de exacerbar a ativação dos sistemas de PÂNICO-LUTO (pela perda de limites e contenção) e RAIVA. A "liberdade" esquizoanalítica, para um cérebro que não desenvolveu a capacidade de integrar afetos, pode ser vivenciada não como libertação, mas como um colapso psicótico ou uma 'descompensação borderline'.
O Ponto de Convergência e o Possível
O ponto de contato mais viável está no sistema de BRINCAR (PLAY). A esquizoanálise valoriza a ludicidade e a quebra de regras fixas. Na neuropsicanálise, o sistema PLAY é fundamental para o desenvolvimento social e a resiliência. Uma abordagem integrativa poderia usar a "ludicidade" (dentro de um enquadre seguro, como o da TFP) para ajudar o paciente a flexibilizar suas defesas rígidas, sem, contudo, abandonar a necessidade biológica de um "eu" coeso e regulado.
Síntese Comparativa
Conceito no Texto Original (Estrutural / Filosófico) e Tradução pela Neuropsicanálise (Solms / Panksepp)
Defesas Primitivas (Cisão)
Falha do córtex em modular a hiperativação binária dos sistemas subcorticais de SOBREVIVÊNCIA (MEDO/RAIVA), impedindo a co-ativação com sistemas de VINCULAÇÃO (CUIDADO).
Defesas Maduras (Sublimação)
Regulação ótima onde o sistema de BUSCA (SEEKING) é harmoniosamente canalizado por redes corticais complexas, sem suprimir, mas transformando a energia afetiva.
Objetivo da TFP (Integração do Self)
Fortalecimento da função inibitória e regulatória do Ego (córtex pré-frontal) sobre os afetos primários do Id, permitindo a tolerância à ambivalência e a homeostase relacional.
Objetivo da Esquizoanálise (Desterritorialização)
Valorização excessiva dos sistemas de BUSCA e BRINCAR em detrimento da necessidade biológica de contenção (CUIDADO) e regulação cortical, o que pode ser desafiador para psiquismos já desregulados.
O Hardware Encontrando o Software
Enquanto o modelo estrutural e a crítica esquizoanalítica operam no nível de decopilação do "software", algo como, traduzi-lo de volta para o código-fonte original (ou muito próximo a ele, examinando e alinhando o significado, narrativa, escrutinando a filosofia política da mente), a neuropsicanálise de Solms e Panksepp fornece a compreensão do "hardware" (circuitos afetivos, regulação neuroquímica).
A comparação revela que a busca pela "integração" (Na obra de Otto Kernberg, um dos maiores expoentes vivos da psicanálise contemporânea, a integração é o processo central do desenvolvimento psíquico saudável. Ela consiste na capacidade de unir, em uma mesma representação, os aspectos positivos ("bons") e negativos ("maus") de si mesmo e dos outros) não é apenas uma imposição moral ou social de normalidade, mas uma necessidade neurobiológica para que o organismo humano possa regular seus sistemas de sofrimento (PÂNICO-LUTO) e acessar plenamente seus sistemas de recompensa e vínculo (BUSCA, CUIDADO e BRINCAR) de forma sustentável.
Crônicas Sistêmicas
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