Capital, Subjetividade e Adoecimento Social: um breve ensaio clínico-político
Rogério Ari Leirias
Preâmbulo
Este ensaio nasce do cruzamento entre três campos que, na prática clínica e política, jamais estiveram separados, a economia política do capital, a produção histórica da desigualdade e os modos contemporâneos de subjetivação. Trata-se de um texto situado, escrito a partir do lugar de quem atua clinicamente sobre os efeitos do sistema e, simultaneamente, observa suas engrenagens estruturais.
Não se pretende aqui repetir Marx, comentar Piketty ou aplicar mecanicamente a esquizoanálise, mas produzir uma percepção, uma leitura integrada, clínica e política, sintoniza-la no contexto atual, capaz de dar conta do adoecimento subjetivo sistêmico que emerge do estágio atual de 'mais uma' crise no capitalismo.
Do capital como estrutura ao capital como experiência vivida
Marx demonstrou que o capital é uma relação social fundada na exploração e na acumulação e Piketty comprovou empiricamente, que essa acumulação não apenas persiste, como também se radicaliza ao longo prazo, produzindo um capitalismo patrimonial no qual o passado devora quase todo futuro. E aquilo que aparece na clínica contemporânea ultrapassa a desigualdade mensurável, pois o capital tornou-se preponderância narrativa e cultural, experiência vivida, uma forma de sentir de perceber e de existir.
Na clínica, não encontramos apenas os sujeitos precarizados economicamente; também os entes, estão todos entre assujeitados e colonizados internamente pela lógica do capital tardio. O sofrimento já não decorre apenas da falta material, ele brota da internalização de um regime permanente de comparação, desempenho e inadequação. São agendas obrigatórias.
A desigualdade como operador psíquico
A desigualdade descrita por Piketty não é neutra do ponto de vista subjetivo, age como um silencioso operador psíquico, produzindo uma ansiedade crônica e sensação de fracasso pessoal e de colapso dos horizontes de futuro. Fechando-se a mobilidade social, então o desejo por não encontrar as vias de simbolização, tendera a reterritorializar-se de forma reativa.
Clinicamente, isso se manifesta como depressões ligadas à sensação de inutilidade e quadros de ansiedade associados à híper performances; identidades rígidas usadas como defesa contra a perda de lugar simbólico e agressividade projetada em inimigos imaginários.
A desigualdade econômica, portanto, converte-se em desigualdade afetiva e existencial.
Produção de subjetividade e captura do desejo
A esquizoanálise permite compreender que o capitalismo contemporâneo não se limita a explorar o trabalho, pois ele produz subjetividades compatíveis com sua própria reprodução. Armadilhado, o sujeito é convocado a se pensar como empresa de si, 'potencialmente independente por autônomo' e gestor de sua imagem, curador de sua própria narrativa.
Esse processo dissolve a percepção de pertencimento coletivo e enfraquece a experiência de classe, o sentido de coesão e pertencimento social e de grupo. O sofrimento deixa de ser lido como efeito estrutural e passa a ser vivido como falha individual. A clínica, nesse contexto, torna-se um espaço privilegiado para observar como o capital se infiltra no inconsciente e organiza o gozo e nele deprecia o sujeito ao lugar menor e impotente.
Reterritorializações regressivas e política do ressentimento
Quanto mais o capital se desterritorializa financeiramente, produtivamente e simbolicamente, mais intensas se tornam as arenas das reterritorializações subjetivas. Nacionalismos, fundamentalismos, guerras culturais e identidades rígidas funcionam como tentativas desesperadas de restituição de um chão perdido.
Essas formações são efeitos internos da desigualdade estrutural. Politicamente, operam como dispositivos de captura do mal-estar social, desviando o conflito de suas causas materiais e reorganizando-o no plano moral e identitário. A história e as subjetividades serão tomadas... E não são anomalias externas ao sistema, agem como compressores, compactadores, sequestradores das potências e do existir para todos os que não lhe servem apropriadamente.
Clínica e política são partes de um mesmo campo
Não há separação possível entre clínica e política quando o sofrimento é produzido sistemicamente. A clínica que ignora as determinações estruturais corre o risco de perder o objetivo e adaptar o sujeito ao insuportável. A política que ignora a subjetividade, produz projetos que fracassam por não compreender os mecanismos de captura do desejo e expressão apropriadas
A prática clínica, neste contexto, consiste em devolver ao sujeito a leitura estrutural de seu sofrimento; reabrir o campo do desejo para além da lógica do desempenho; reinstaurar a experiência do presente e do corpo e possibilitar reterritorializações éticas, não regressivas.
Linhas de fuga e responsabilidade ética
A esquizoanálise busca os movimentos de recomposição do desejo fora das formas dominantes de captura. Clinicamente e politicamente, trata-se de sustentar espaços onde o sujeito possa deixar de ser produto, métrica ou perfil, e voltar a ser presença.
Isso implica uma responsabilidade ética radical: não reforçar identidades adoecidas, não fetichizar o sofrimento, não transformar a clínica em mais um dispositivo de adaptação e servilidade ao capital.
Considerações...
Assim, o capitalismo contemporâneo, confirmado empiricamente por Piketty e antecipado teoricamente por Marx, entrou em uma fase na qual sua principal matéria-prima é provida na conversão das subjetividades. A desigualdade estrutural tornou-se inseparável da produção de sofrimento psíquico e da fragmentação do laço social e humano, máquinas desejantes reprodutoras e mantenedoras da própria desigualdade.
Este ensaio sustenta que somente uma abordagem integrada econômica, política e clínica é capaz de enfrentar os efeitos desse sistema. A clínica, quando comprometida eticamente, pode tornar-se um dos poucos espaços de resistência real à captura total da vida pelo capital.
Karl Marx (1818–1883)
Filósofo, economista político, sociólogo e jornalista alemão, Karl Marx é um dos principais críticos do capitalismo moderno. Sua obra central, O Capital, analisa o modo de produção capitalista a partir das categorias de valor, trabalho, mais-valia e acumulação, formulando as leis estruturais da concentração do capital e da reprodução das classes sociais. Marx exerceu profunda influência sobre a teoria social, a economia política e os movimentos políticos dos séculos XIX e XX, permanecendo referência fundamental para a compreensão crítica das desigualdades no capitalismo contemporâneo.
Thomas Piketty (1971– )
Economista francês e professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) e da Paris School of Economics, Thomas Piketty é reconhecido por seus estudos empíricos sobre desigualdade de renda e patrimônio. Em O Capital no Século XXI, reconstrói a dinâmica histórica da concentração de riqueza a partir de extensos dados fiscais internacionais, demonstrando a tendência estrutural do capitalismo à desigualdade quando a taxa de retorno do capital supera o crescimento econômico. Seu trabalho revitalizou o debate global sobre justiça distributiva, tributação progressiva e os limites do capitalismo contemporâneo.
- crônicas sistêmicas
Este texto reflete a posição teórica e clínica do autor e integra sua pesquisa contínua sobre subjetividade, sistemas de poder e processos de adoecimento social no capitalismo contemporâneo.