quarta-feira, 6 de novembro de 2024

não terão sucesso

A desgraça está posta.
O demônio do norte que avisou que semearia a morte, 
venceu e agora comandará o inferno sobre a terra.
O sul global é um de seus principais alvos. 
As bestas sabujas do ódio fascista comemoram lá e aqui... 
Seremos todos arrastados para as suas arenas, aonde não 
sabemos como nos comportar além de nossas costumeiras 
reatividades servis aos seus interesses. As rupturas sociais 
e catástrofes de toda ordem serão as suas ferramentas 
de submissão e controle, nós e nossas dores seremos o 
combustível do sucesso deles. Ninguém ficará isento 
ou impune, pois o ódio oficialmente agora comanda 
o mundo, e eles nos desprezam e nos odeiam, 
contudo, precisam nós... pois sem nos destruírem 
eles não terão sucesso...
- Crônicas das lutas de classe


terça-feira, 5 de novembro de 2024

Uma Leitura Gestáltica da Teoria de Riane Eisler

Modelo de Parceria e Transformação Social 

Vivemos em um mundo atravessado por relações de poder, onde a maneira como nos organizamos socialmente impacta profundamente as nossas experiências individuais e coletivas. A teoria de mudança de sistemas proposta por Riane Eisler oferece uma compreensão poderosa desses fenômenos, sugerindo que estamos culturalmente condicionados a seguir um "modelo de dominação" – uma estrutura baseada em hierarquias rígidas e na subordinação de um grupo sobre o outro. Esse paradigma, conforme Eisler, é um padrão histórico que perpetua relações desiguais e impede uma verdadeira cooperação.

Em contraste, Eisler propõe o "modelo de parceria", um sistema baseado em colaboração, respeito e apoio mútuo, que valoriza a diversidade e promove o florescimento humano. Como terapeutas e analistas sistêmicos, encontramos um paralelo entre essa proposta e a Gestalt-terapia, que foca em trazer o indivíduo para o aqui e agora, possibilitando a transformação ao tomar consciência de suas relações e dinâmicas interativas. Com essa base, vamos explorar como a visão de parceria de Eisler dialoga com a prática gestáltica e como esses princípios podem fomentar mudanças tanto no nível pessoal quanto social.


O Modelo de Parceria de Riane Eisler

No cerne da teoria de Eisler está a ideia de que a cultura humana pode evoluir de acordo com duas formas de estruturação social: a dominação ou a parceria. O modelo de dominação, segundo Eisler, é caracterizado pela hierarquia e pelo controle, onde a obediência é mantida pela força ou pelo medo, e as diferenças são frequentemente vistas como ameaças. Esse modelo promove uma visão limitada de poder, onde o ganho de um significa a perda de outro, o que, em última instância, reduz o potencial de cooperação e cria ciclos de violência e exclusão.

Por outro lado, o modelo de parceria representa uma estrutura social onde as diferenças são respeitadas e valorizadas. Aqui, o poder é percebido como uma força compartilhada, utilizada para apoiar o crescimento e o bem-estar de todos os envolvidos. Eisler defende que esse paradigma gera sociedades mais justas e pacíficas, na medida em que permite que homens e mulheres, jovens e idosos, diferentes etnias e classes sociais possam se ver como parceiros iguais.

Eisler acredita que, ao fomentar uma mudança cultural rumo ao modelo de parceria, a sociedade pode superar suas estruturas opressoras e se reconstruir com base na colaboração e no respeito. Esse processo de transformação não ocorre de forma abrupta, mas através de práticas que promovam a igualdade, educação para a empatia, e políticas que encorajem a colaboração ao invés da competição.


A Perspectiva Gestáltica sobre Sistemas e Mudança

Na Gestalt-terapia, trabalhamos com a ideia de que o indivíduo está em constante relação com o seu ambiente e que seu desenvolvimento depende da qualidade dessas interações. O conceito de campo é fundamental: entendemos que a pessoa não existe em isolamento, mas sim como parte de um sistema maior de influências e relações. A transformação ocorre quando a pessoa toma consciência de seu papel nesse campo e das dinâmicas que sustentam seus padrões de comportamento.

Gestalt-terapia valoriza a autorresponsabilidade e a tomada de consciência como caminho para a mudança. Através do que chamamos de awareness- "consciência com percepção ativa", a pessoa é convidada a perceber como participa e responde às interações que moldam sua vida. Essa prática permite ao indivíduo observar suas escolhas – sejam elas de conformidade com o modelo de dominação ou com a parceria –, desenvolvendo, assim, a liberdade para buscar relações mais saudáveis e alinhadas com seus valores.

Nesse contexto, o modelo de parceria de Eisler pode ser visto como uma extensão natural do que a Gestalt busca na experiência terapêutica: uma integração do self onde a pessoa toma posse de suas decisões, mas também percebe o impacto que elas causam nos outros. A transformação é, portanto, uma prática constante de se ajustar de acordo com a nova percepção do próprio campo e de como se posicionar nele.


Conexão entre Eisler e Gestalt: Um Caminho para a Autonomia e a Cooperação

A conexão entre o modelo de parceria e a prática gestáltica revela que ambas as abordagens convergem na valorização da autonomia e da empatia. Quando praticamos o modelo de parceria proposto por Eisler, reconhecemos que cada indivíduo tem um valor intrínseco e deve ser visto como um colaborador potencial, não como uma ameaça ou uma peça subordinada.

Na Gestalt-terapia, esse conceito se traduz na aceitação plena do outro, sem julgamento ou controle. Ao trabalhar com um cliente, o terapeuta gestáltico convida-o a entender e respeitar a si mesmo e os outros, promovendo uma forma de relação onde as diferenças não são apagadas, mas integradas em um contexto de aceitação mútua. Nesse sentido, a Gestalt e o modelo de parceria se complementam, criando uma abordagem terapêutica e social em que o objetivo é a saúde do sistema como um todo, em vez de uma vitória unilateral.


Rumo a uma Prática de Parceria e Consciência Gestáltica

À medida que indivíduos e comunidades optam pelo modelo de parceria, como Eisler propõe, e buscam práticas que fomentem o respeito e a colaboração, a própria base de nossas estruturas sociais pode se transformar. No contexto da terapia gestáltica, essa mudança se reflete na prática de trazer o cliente para o momento presente, onde ele pode reconhecer padrões de dominação herdados e, conscientemente, escolher novas formas de relação baseadas em parceria e reciprocidade.

Para que essa transformação ocorra, é necessário que terapeutas e líderes sociais promovam práticas conscientes de parceria, incentivando a autoanálise e a autorresponsabilidade. Assim, tanto na terapia quanto nas relações sociais mais amplas, é possível construir uma rede de apoio que contribua para a realização do potencial humano.

Essa integração da Gestalt com o modelo de parceria de Eisler pode fornecer uma base sólida para o desenvolvimento de práticas terapêuticas e sociais mais empáticas, em que o foco esteja na colaboração, no crescimento mútuo e na criação de um futuro onde a justiça e o bem-estar são os principais pilares.

- crônicas sistêmicas


Referências:

Obras de Riane Eisler sobre o Modelo de Parceria

  • Eisler, Riane. O Cálice e a Espada: Nossa História, Nosso Futuro. Este é o livro em que Eisler apresenta sua teoria dos modelos de dominação e parceria, explorando suas bases históricas e a relevância para a cultura atual.
  • Eisler, Riane. The Real Wealth of Nations: Creating a Caring Economics. Aqui, Eisler expande o conceito do modelo de parceria para o âmbito econômico, propondo uma abordagem para transformar sistemas econômicos por meio de valores de cooperação e cuidado.

 Conceitos de Gestalt-terapia

  • Perls, Frederick S.; Hefferline, Ralph F.; Goodman, Paul. Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality. Esta obra fundacional da Gestalt explora os princípios da "consciência com percepção ativa" e da relação do indivíduo com o ambiente.
  • Brownell, Philip (Ed.). Handbook for Theory, Research, and Practice in Gestalt Therapy. Uma coletânea que aprofunda a teoria e a prática da Gestalt-terapia, incluindo discussões sobre o campo e a relação indivíduo-ambiente, relevantes para o conceito de sistemas relacionais.

 Textos que Relacionam Teoria Social e Terapia

  • Yontef, Gary M.; Jacobs, Lynne. Gestalt Therapy. Um artigo acessível que sintetiza os conceitos principais da Gestalt-terapia, incluindo a importância da percepção ativa nas relações interpessoais e no autocuidado.
  • Parlett, M. Contemporary Gestalt Therapy: Field Theory and the Role of Systems in Psychotherapy. Parlett apresenta uma abordagem contemporânea da Gestalt que relaciona teoria de campo com mudanças sistêmicas, o que conecta com a proposta de mudança cultural de Eisler.

 Artigos e Ensaios sobre Psicologia e Mudança Social

  • Levine, Peter. Waking the Tiger: Healing Trauma. Embora seja focado em trauma, Levine explora aspectos de percepção ativa e autopercepção em sistemas humanos, oferecendo insights aplicáveis à ideia de transformação pessoal e coletiva.
  • Jordan, Judith V. Relational-Cultural Therapy. Esse modelo terapêutico foca na interdependência e na construção de relações autênticas, um conceito que se aproxima do modelo de parceria de Eisler e pode oferecer perspectivas complementares à Gestalt.




saberia...

Você saberia ser você, sem saber.
Você escreveria, mesmo se ninguém lesse?
Você sentiria, mesmo se não compreendesse?
Você existiria, mesmo se nada soubesse?
Você saberia ser você sem saber.
- crônicas das lutas de classe

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Fiz um poema de dor.

Fiz um poema de dor.
Mas o genocídio ainda
não acabou... escrevi
sobre o amor, aquele
que não se consolidou
entre seres e mundos
e seus sonhos de valor...
Como tantos de nós
esperam por milagres
contra coisas como a
morte, que já chegou?
Pois ela veio ontem,
e nem nos avisou
morreram nossos
horizontes para
longe do amor...
morreu o senso de
humanidade
morreu a compreensão
sobre o próximo
e a sua dor...
e um abismo se formou
foi lá aonde morreram as
milhares de crianças que
ninguém sequer notou!
- crônicas das lutas de classe

Sobre o tempo

E noves fora tudo, 
reza a lenda 
que é dividindo 
que se conquista...
um passo e um
dragão de cada 
vez, e às vezes 
à perder de vista... 
seja lá o que 
no momento
for o bem, e
noutras o mal, 
mas é só no depois 
é que se mostra 
verdadeiramente 
o que foi o real...
- crônicas das lutas de classe

histórias

Trino é o tempo
em segundos
e minutos
e horas
que passam
em instantes,
mas insiste
o momento
em ser sempre
como o agora...
Viaja ali um sujeito em
assujeitamentos de suas
já agendadas histórias...
- metateatro

A Teoria Geral dos Sistemas e as teorias de campos Mórficos

 A Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig von Bertalanffy é uma abordagem fundamental que ajuda a entender sistemas complexos em várias disciplinas, como biologia, psicologia, sociologia e ecologia, promovendo uma visão holística do mundo. O conceito-chave de Bertalanffy é que os sistemas não podem ser compreendidos apenas pela soma de suas partes, pois as inter-relações e interdependências entre elementos criam propriedades emergentes. Isso permite uma visão integrada, especialmente útil para analisar estruturas sociais e culturais, como o patriarcado e as narrativas mitológicas que moldam comportamentos coletivos.

Os principais pontos da Teoria Geral dos Sistemas:

Sistemas Abertos e Fechados

  • Sistemas Abertos: São sistemas que interagem com o ambiente, trocando energia, matéria ou informação. Essa característica é essencial para entender como estruturas como o patriarcado, embora aparentemente estáveis, mudam com as influências externas (movimentos sociais, transformações culturais, novas tecnologias).
  • Sistemas Fechados: Em contraste, sistemas fechados têm pouco ou nenhum intercâmbio com o ambiente externo. Embora existam poucos sistemas fechados na realidade, algumas culturas patriarcais mais rígidas tentam manter uma estrutura próxima ao "fechado", limitando influências externas para manter a tradição.

Totalidade e Emergência

  • Totalidade: Na teoria dos sistemas, o todo é maior que a soma das partes. Assim, o sistema patriarcal, por exemplo, não pode ser entendido apenas analisando indivíduos (pais, filhos, papéis de gênero), mas precisa ser visto como um organismo social completo, onde cada elemento contribui para a manutenção ou subversão da estrutura.
  • Propriedades Emergentes: Essas são características que surgem de uma rede de interações entre elementos e que não são observáveis nas partes isoladas. No contexto de nossa análise, a “norma patriarcal” emergente afeta o comportamento individual e coletivo, moldando percepções, valores e atitudes, ainda que ninguém, individualmente, intencione perpetuar essa estrutura.

Equilíbrio e Homeostase

  • Bertalanffy descreve os sistemas como dinâmicos, buscando sempre um equilíbrio. No patriarcado, por exemplo, a homeostase é mantida por meio de normas, tradições e mitos que reforçam o status quo. Quando ocorre um movimento de transformação, como a emancipação feminina ou mudanças nos papéis de gênero, o sistema responde para tentar restabelecer um novo ponto de equilíbrio, ajustando-se às novas influências.
  • Esse conceito também é relevante para entender os sistemas de crenças e como eles se adaptam para absorver mudanças, sem perder completamente o seu núcleo central.

Interdependência e Interconectividade

  • Em um sistema, os elementos são interdependentes, o que significa que mudanças em uma parte impactam o sistema como um todo. O patriarcado, como sistema social, não só afeta as interações familiares, mas também o mercado de trabalho, a política e até a estrutura de linguagem.
  • Esse ponto é fundamental na esquizoanálise, que busca mapear as interconexões entre sistemas individuais (psique) e coletivos (sociedade), identificando como sistemas sociais influenciam diretamente o comportamento e o autoconhecimento de cada pessoa.

Perspectiva Sistêmica e Autossuficiência

  • Ao aplicar a Teoria Geral dos Sistemas, é possível ver como movimentos de emancipação e busca por autossuficiência atuam de maneira sistêmica. Essas ações não ocorrem isoladamente; são respostas a pressões do sistema social e, ao mesmo tempo, impactam o próprio sistema.
  • Na perspectiva gestáltica, a autossuficiência — ou seja, a capacidade de atuar de forma lúcida e presente — pode ser vista como uma maneira de reposicionar-se em relação ao sistema patriarcal, questionando sua autoridade e buscando o desenvolvimento pessoal fora de papéis preestabelecidos. Essa busca por autonomia contribui para a transformação de todo o sistema social.

Aplicação Prática da Teoria dos Sistemas na Análise de Estruturas Sociais

A Teoria Geral dos Sistemas oferece ferramentas conceituais para observar:

  • Como movimentos sociais (como o feminismo ou movimentos pela igualdade de gênero) não são apenas reações a uma estrutura opressiva, mas também geradores de novas interações, mudando o próprio “ecossistema” social.
  • Como as mitologias e narrativas culturais funcionam como "circuitos de feedback", reforçando o status quo (ou, no caso de mitos revisionistas, oferecendo saídas e visões alternativas).
  • Como o indivíduo, ao adotar uma postura consciente (awareness) e ativa em relação ao sistema, altera seu papel e, ao fazer isso, influencia o equilíbrio do sistema.

Da Estrutura ao Fluxo

Bertalanffy argumenta que uma visão sistêmica deve ser dinâmica, reconhecendo o fluxo constante e a mudança como parte essencial da vida dos sistemas. Assim, o patriarcado e as narrativas de poder podem ser vistos não como estruturas fixas, mas como sistemas em fluxo, que podem se dissolver ou se transformar conforme novas interações e pressões surgem. A Teoria Geral dos Sistemas oferece um modelo abrangente para analisar a sociedade e o comportamento humano, apontando que mudanças individuais, quando somadas, são capazes de impactar o todo.

As confluências entre a Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig von Bertalanffy e as teorias de campos Mórficos de Rupert Sheldrake.

Há uma interessante confluência entre a Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig von Bertalanffy e as teorias de Rupert Sheldrake, especialmente sua hipótese dos campos mórficos e ressonância mórfica. Ambos abordam a interconectividade e a ideia de que os sistemas (biológicos, sociais e culturais) possuem propriedades que vão além das partes individuais. No entanto, eles o fazem de maneiras distintas: enquanto Bertalanffy foca na estruturação e interação dos sistemas através de princípios científicos e observáveis, Sheldrake propõe que existe uma espécie de "campo informacional" que influencia padrões e comportamentos.

Pontos de Confluência

  1. Interconectividade e Padrões Emergentes

    • Bertalanffy fala sobre propriedades emergentes nos sistemas, ou seja, características que surgem das interações entre os elementos e não são observáveis em partes isoladas. Essas propriedades são uma expressão da organização e das relações que formam o sistema.
    • Sheldrake propõe algo semelhante com a ressonância mórfica, que é a ideia de que padrões de comportamento e formas biológicas são transmitidos através de um "campo" que conecta os indivíduos de uma espécie ou grupo. De acordo com ele, esse campo "mórfico" cria um padrão que os sistemas seguem, mantendo comportamentos e estruturas sem precisar de uma transmissão direta ou genética.
  2. Memória e Habituação dos Sistemas

    • Memória nos Sistemas: Bertalanffy não descreve um campo como Sheldrake, mas reconhece que os sistemas podem apresentar padrões de comportamento ou reações habituais como resultado de suas interações e adaptações. Isso seria semelhante à maneira como as sociedades criam e mantêm normas, tradições e estruturas de poder.
    • Campos Mórficos e Memória Coletiva: Sheldrake teoriza que existe uma “memória coletiva” que persiste nos campos mórficos. Esse campo influencia membros da mesma espécie ou grupos, levando a comportamentos aprendidos em uma geração a serem, de alguma forma, transmitidos e replicados em outras. Isso se alinha com a visão sistêmica de que o ambiente cultural ou social de um grupo pode "repetir" e solidificar padrões comportamentais.
  3. Mudança Sistêmica e Ressonância

    • Ambos também compartilham a ideia de que mudanças individuais podem, em última análise, influenciar o sistema maior.
    • Na Teoria Geral dos Sistemas, pequenos ajustes em uma parte do sistema podem levar a uma reestruturação no sistema como um todo, à medida que busca um novo ponto de equilíbrio.
    • Na Hipótese da Ressonância Mórfica, mudanças que se consolidam em um indivíduo ou grupo acabam, eventualmente, influenciando o campo mórfico da espécie ou grupo. Se determinado comportamento ou característica se torna comum, Sheldrake sugere que essa mudança ressoa e passa a influenciar outros membros, potencialmente resultando em uma mudança coletiva.
  4. Autossuficiência e Evolução Sistêmica

    • A perspectiva de Bertalanffy sobre sistemas abertos implica que os sistemas evoluem através de adaptações, onde influências externas e mudanças internas contribuem para a autossuficiência e sobrevivência. É uma noção de evolução que se encaixa com o conceito de campos mórficos de Sheldrake, onde o campo que conecta um sistema se "adapta" ou se modifica para acomodar novos comportamentos ou descobertas, criando uma evolução não-linear.

Divergências

  1. Método Científico vs. Metafísica

    • Bertalanffy manteve sua teoria dentro de um quadro científico, tentando explicar os sistemas com base na observação, na biologia e em outras ciências. Ele buscava criar uma metodologia aplicável a diferentes domínios, como uma linguagem comum para descrever sistemas complexos.
    • Sheldrake, ao introduzir conceitos como campos mórficos, entra em um campo mais especulativo e metafísico, pois suas ideias não se baseiam na observação direta nem são passíveis de uma comprovação tradicional científica. Ele propõe um tipo de “campo informacional” que desafia as teorias convencionais de genética e biologia.
  2. Explicação das Propriedades Emergentes

    • Para Bertalanffy, as propriedades emergentes são o resultado de interações observáveis e mensuráveis entre elementos do sistema.
    • Para Sheldrake, no entanto, os campos mórficos representam um tipo de "memória" não-biológica e não-observável diretamente, que facilita a emergência de comportamentos e formas.

Aplicação Conjunta na Análise de Estruturas Sociais

Quando aplicadas juntas, essas teorias fornecem uma visão profunda da formação e perpetuação de sistemas como o patriarcado:

  • Bertalanffy oferece uma estrutura para entender como elementos inter-relacionados mantêm a estrutura do sistema patriarcal, adaptando-se a pressões sociais, tecnológicas e culturais.
  • Sheldrake complementa essa visão ao sugerir que existe uma "memória coletiva" ou “campo mórfico” que reforça tais sistemas, permitindo que estruturas de dominação e normas culturais se perpetuem mesmo com mudanças de indivíduos.

Portanto, as duas teorias dialogam ao mostrar que sistemas complexos, como o patriarcado, a cultura e as normas, são mantidos não só pelas interações observáveis entre seus elementos, mas também por um "campo" informacional ou uma “memória” sistêmica. Essa visão integrada permite entender como mudanças significativas podem ser alcançadas não apenas através de ações individuais, mas também através de influências coletivas e da ressonância cultural ou psicológica.

Pontos centrais de ambas as teorias que refletem sua visão de sistemas interligados e processos de desenvolvimento:

  1. Teoria Geral dos Sistemas de Bertalanffy: Bertalanffy propôs a TGS como uma maneira de entender sistemas complexos, vivos e inanimados, em termos de seus elementos inter-relacionados e de como eles buscam equilíbrio dentro de um ambiente dinâmico. Ele introduziu conceitos como equifinalidade (a capacidade de alcançar um estado final semelhante a partir de diferentes condições iniciais) e destacou a importância dos sistemas abertos, que trocam energia com seu ambiente, ao contrário dos sistemas fechados abordados pela termodinâmica clássica. Esse entendimento de sistemas dinâmicos e interconectados ainda é aplicado na biologia, psicologia, ecologia e ciências sociais​                                                                                                (links acervo técnico e docs- Panarchy / Is Nature / Internet Archive )

  2. Conexão com as Teorias de Rupert Sheldrake: Sheldrake, com sua teoria dos "campos morfogenéticos" e "ressonância mórfica", introduziu a ideia de que os seres vivos são influenciados por padrões de comportamento e desenvolvimento que residem em um campo de informações não-material. A teoria se alinha com a TGS em sua visão de interconectividade entre sistemas, mas expande a abordagem para incluir influências não-físicas e mais holísticas, sugerindo que o aprendizado e o comportamento podem ser "armazenados" em campos que transcendem os organismos individuais e influenciam o desenvolvimento futuro.

  3. A documentação e acervos científicos atuais, oferecem uma base sólida para relacionarmos as abordagens de Bertalanffy e Sheldrake em um contexto que combina biologia, psicologia e teorias de sistemas aplicados.

- Crônicas sistêmicas

Referências:

  1. Bertalanffy, Ludwig von. General System Theory: Foundations, Development, Applications. Este livro clássico de Bertalanffy é o fundamento da Teoria Geral dos Sistemas, abordando como sistemas complexos interagem e trocam informações e energia com seus ambientes. Bertalanffy desenvolve a noção de sistemas abertos, equifinalidade e a aplicação da TGS em várias disciplinas, como psicologia e biologia​ ( Panarchy ) 

    .

  2. Sheldrake, Rupert. A New Science of Life: The Hypothesis of Formative Causation. Neste livro, Sheldrake introduz sua teoria dos campos morfogenéticos e da ressonância mórfica, propondo que padrões de desenvolvimento e comportamento são influenciados por "memórias" coletivas que residem fora dos indivíduos, um conceito que se conecta à interconexão de sistemas, ampliando a TGS para incluir dimensões não-materialistas​  ( Internet Archive )

    .

  3. Capra, Fritjof. The Web of Life: A New Scientific Understanding of Living Systems. Capra explora a evolução da TGS e sua aplicabilidade moderna, discutindo as influências holísticas e interconexões entre os sistemas vivos e seus ambientes, o que relaciona a teoria de Bertalanffy às ideias de Sheldrake sobre ressonância​