terça-feira, 5 de novembro de 2024

Uma Leitura Gestáltica da Teoria de Riane Eisler

Modelo de Parceria e Transformação Social 

Vivemos em um mundo atravessado por relações de poder, onde a maneira como nos organizamos socialmente impacta profundamente as nossas experiências individuais e coletivas. A teoria de mudança de sistemas proposta por Riane Eisler oferece uma compreensão poderosa desses fenômenos, sugerindo que estamos culturalmente condicionados a seguir um "modelo de dominação" – uma estrutura baseada em hierarquias rígidas e na subordinação de um grupo sobre o outro. Esse paradigma, conforme Eisler, é um padrão histórico que perpetua relações desiguais e impede uma verdadeira cooperação.

Em contraste, Eisler propõe o "modelo de parceria", um sistema baseado em colaboração, respeito e apoio mútuo, que valoriza a diversidade e promove o florescimento humano. Como terapeutas e analistas sistêmicos, encontramos um paralelo entre essa proposta e a Gestalt-terapia, que foca em trazer o indivíduo para o aqui e agora, possibilitando a transformação ao tomar consciência de suas relações e dinâmicas interativas. Com essa base, vamos explorar como a visão de parceria de Eisler dialoga com a prática gestáltica e como esses princípios podem fomentar mudanças tanto no nível pessoal quanto social.


O Modelo de Parceria de Riane Eisler

No cerne da teoria de Eisler está a ideia de que a cultura humana pode evoluir de acordo com duas formas de estruturação social: a dominação ou a parceria. O modelo de dominação, segundo Eisler, é caracterizado pela hierarquia e pelo controle, onde a obediência é mantida pela força ou pelo medo, e as diferenças são frequentemente vistas como ameaças. Esse modelo promove uma visão limitada de poder, onde o ganho de um significa a perda de outro, o que, em última instância, reduz o potencial de cooperação e cria ciclos de violência e exclusão.

Por outro lado, o modelo de parceria representa uma estrutura social onde as diferenças são respeitadas e valorizadas. Aqui, o poder é percebido como uma força compartilhada, utilizada para apoiar o crescimento e o bem-estar de todos os envolvidos. Eisler defende que esse paradigma gera sociedades mais justas e pacíficas, na medida em que permite que homens e mulheres, jovens e idosos, diferentes etnias e classes sociais possam se ver como parceiros iguais.

Eisler acredita que, ao fomentar uma mudança cultural rumo ao modelo de parceria, a sociedade pode superar suas estruturas opressoras e se reconstruir com base na colaboração e no respeito. Esse processo de transformação não ocorre de forma abrupta, mas através de práticas que promovam a igualdade, educação para a empatia, e políticas que encorajem a colaboração ao invés da competição.


A Perspectiva Gestáltica sobre Sistemas e Mudança

Na Gestalt-terapia, trabalhamos com a ideia de que o indivíduo está em constante relação com o seu ambiente e que seu desenvolvimento depende da qualidade dessas interações. O conceito de campo é fundamental: entendemos que a pessoa não existe em isolamento, mas sim como parte de um sistema maior de influências e relações. A transformação ocorre quando a pessoa toma consciência de seu papel nesse campo e das dinâmicas que sustentam seus padrões de comportamento.

Gestalt-terapia valoriza a autorresponsabilidade e a tomada de consciência como caminho para a mudança. Através do que chamamos de awareness- "consciência com percepção ativa", a pessoa é convidada a perceber como participa e responde às interações que moldam sua vida. Essa prática permite ao indivíduo observar suas escolhas – sejam elas de conformidade com o modelo de dominação ou com a parceria –, desenvolvendo, assim, a liberdade para buscar relações mais saudáveis e alinhadas com seus valores.

Nesse contexto, o modelo de parceria de Eisler pode ser visto como uma extensão natural do que a Gestalt busca na experiência terapêutica: uma integração do self onde a pessoa toma posse de suas decisões, mas também percebe o impacto que elas causam nos outros. A transformação é, portanto, uma prática constante de se ajustar de acordo com a nova percepção do próprio campo e de como se posicionar nele.


Conexão entre Eisler e Gestalt: Um Caminho para a Autonomia e a Cooperação

A conexão entre o modelo de parceria e a prática gestáltica revela que ambas as abordagens convergem na valorização da autonomia e da empatia. Quando praticamos o modelo de parceria proposto por Eisler, reconhecemos que cada indivíduo tem um valor intrínseco e deve ser visto como um colaborador potencial, não como uma ameaça ou uma peça subordinada.

Na Gestalt-terapia, esse conceito se traduz na aceitação plena do outro, sem julgamento ou controle. Ao trabalhar com um cliente, o terapeuta gestáltico convida-o a entender e respeitar a si mesmo e os outros, promovendo uma forma de relação onde as diferenças não são apagadas, mas integradas em um contexto de aceitação mútua. Nesse sentido, a Gestalt e o modelo de parceria se complementam, criando uma abordagem terapêutica e social em que o objetivo é a saúde do sistema como um todo, em vez de uma vitória unilateral.


Rumo a uma Prática de Parceria e Consciência Gestáltica

À medida que indivíduos e comunidades optam pelo modelo de parceria, como Eisler propõe, e buscam práticas que fomentem o respeito e a colaboração, a própria base de nossas estruturas sociais pode se transformar. No contexto da terapia gestáltica, essa mudança se reflete na prática de trazer o cliente para o momento presente, onde ele pode reconhecer padrões de dominação herdados e, conscientemente, escolher novas formas de relação baseadas em parceria e reciprocidade.

Para que essa transformação ocorra, é necessário que terapeutas e líderes sociais promovam práticas conscientes de parceria, incentivando a autoanálise e a autorresponsabilidade. Assim, tanto na terapia quanto nas relações sociais mais amplas, é possível construir uma rede de apoio que contribua para a realização do potencial humano.

Essa integração da Gestalt com o modelo de parceria de Eisler pode fornecer uma base sólida para o desenvolvimento de práticas terapêuticas e sociais mais empáticas, em que o foco esteja na colaboração, no crescimento mútuo e na criação de um futuro onde a justiça e o bem-estar são os principais pilares.

- crônicas sistêmicas


Referências:

Obras de Riane Eisler sobre o Modelo de Parceria

  • Eisler, Riane. O Cálice e a Espada: Nossa História, Nosso Futuro. Este é o livro em que Eisler apresenta sua teoria dos modelos de dominação e parceria, explorando suas bases históricas e a relevância para a cultura atual.
  • Eisler, Riane. The Real Wealth of Nations: Creating a Caring Economics. Aqui, Eisler expande o conceito do modelo de parceria para o âmbito econômico, propondo uma abordagem para transformar sistemas econômicos por meio de valores de cooperação e cuidado.

 Conceitos de Gestalt-terapia

  • Perls, Frederick S.; Hefferline, Ralph F.; Goodman, Paul. Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality. Esta obra fundacional da Gestalt explora os princípios da "consciência com percepção ativa" e da relação do indivíduo com o ambiente.
  • Brownell, Philip (Ed.). Handbook for Theory, Research, and Practice in Gestalt Therapy. Uma coletânea que aprofunda a teoria e a prática da Gestalt-terapia, incluindo discussões sobre o campo e a relação indivíduo-ambiente, relevantes para o conceito de sistemas relacionais.

 Textos que Relacionam Teoria Social e Terapia

  • Yontef, Gary M.; Jacobs, Lynne. Gestalt Therapy. Um artigo acessível que sintetiza os conceitos principais da Gestalt-terapia, incluindo a importância da percepção ativa nas relações interpessoais e no autocuidado.
  • Parlett, M. Contemporary Gestalt Therapy: Field Theory and the Role of Systems in Psychotherapy. Parlett apresenta uma abordagem contemporânea da Gestalt que relaciona teoria de campo com mudanças sistêmicas, o que conecta com a proposta de mudança cultural de Eisler.

 Artigos e Ensaios sobre Psicologia e Mudança Social

  • Levine, Peter. Waking the Tiger: Healing Trauma. Embora seja focado em trauma, Levine explora aspectos de percepção ativa e autopercepção em sistemas humanos, oferecendo insights aplicáveis à ideia de transformação pessoal e coletiva.
  • Jordan, Judith V. Relational-Cultural Therapy. Esse modelo terapêutico foca na interdependência e na construção de relações autênticas, um conceito que se aproxima do modelo de parceria de Eisler e pode oferecer perspectivas complementares à Gestalt.




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