sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

De tanto que navego...

Então, de tanto que navego...
tenho a nítida impressão, de não haver um rumo certo.

E admito que nem sempre quando o vento sopra
ele coincidirá com as velas abertas...

Sem medo do inoportuno, por vezes insisto em
atracar nestes portos incertos...

Pois, em qualquer cais, sempre encontrarei fantasmas
que foram minhas versões noutrora ...

E agora, como outros tantos seres,
parecem-me impossíveis,
mas não irreconhecíveis ...

Sim... foram meus desejos mutantes,
que geraram estas mortes constantes,
para as varias dimensões de mim...

E somos de alguma forma então, todos iguais, assim...

Não volto, escolho seguir ocasionalmente
por devaneios de felicidade...

Neles vago com minha mente,
mas, nem sempre prossigo...

Enveredo às vezes, nas mesmas rotas tortas e
nos mesmos caminhos, que então revivo,
de forma apaixonada e involuntariamente...

Mesmo assim, não estou perdido...

Ando até mesmo lucido,
sem muitos devaneios
me deixo ir além, ao mar...
vagueio...

Sou o próprio meio... sou o navegar,
O céu, o mar, o sal e o ar...
permeando-se equilibradamente.

E muito embora, minha razão pareça
incontinente, permaneço seguro, e não pereço...

Longe de meu passado,
mesmo que agora, não obscuro...

E também do incerto futuro...

Como as diferentes velas dum mastro, insisto
transformando o vento em caminho do agora
então, nestes tantos presentes, existo...
Múltiplo... Mundo à fora.
ralleirias



quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Saudade se constrói

Saudade se constrói, como qualquer outra idealização,
muito menos com a cabeça e muito mais com o coração...
Saudade se desconstrói, reconhecendo nela, a ilusão...

Saudade nos torna heróis, numa saga particular...
com feitos homéricos, entre o viver e o amar,
e que tão somente nós, poderemos recordar.

Saudade essa, que ao passado nos prende
e para a qual nossa alma nostálgica... se rende.
Embora seja, um tanto ritual e solene..
possui sim alguma verdade...
Mas é antes pela vontade,
que ela se torna perene...
ralleirias - Das mortes não morridas



Circular em qualquer dimensão

Circular em qualquer dimensão
não é uma necessidade,
nem obrigação.
Mas ante a universal transitoriedade,
pode ser um pedaço importante,
do que compõe nossa realidade...
e talvez, não exista maior liberdade,
do que na aceitação,
de que toda verdade,
é também uma invenção
da objetividade.
ralleirias

entrego...

A palavra que te entrego
É víscera exposta
Pergunta sem resposta
Flagrante descontentamento.

A palavra que jogo
Requer resposta logo
Deseja contradição, e ainda...
Quer equalizar a nossa razão...

Não tenho pressa,
Mas quero agora...
Somente a construção
De um novo 'real'
Me interessa...

A palavra que te empulho
Está contaminada, é entulho...
De certezas falhas, e de opiniões pífias e mesquinhas...
Eram para ser, legitimamente minhas?...

Malditas palavras que me encarceram
Me afastam pelo que foram, e não são mais o que eram...
Também em ti chegam, tortas e carregadas...
Eu quero palavras novas, descompromissadas...

Quero palavras, para uma nova era
Não estas malditas palavras mortas
Fantasmas, filhas das quimeras...
ralleirias - crônicas das lutas de classe



A etimologia

Acho também a etimologia, 
coisa pouca pra definir palavras.
Uma palavra, é como um vírus...
E resulta coisas diferentes, 
em diferentes sistemas e meios...
Como, 'ventura' que tive, tornou-se 
a 'desventura' que no final obtive?
Como é que uma história, 
migra por dentro das palavras,
e bota ali, este prefixo infeliz..?
Mas daí, vem disto, quem sabe,
um outro desdobramento...
E volto-me assim para ele,
o que se passa, é só pensamento!
Ventura e desventura, são aventuras!
Uma bandeira, tremulando 
ao sabor destes ventos...
Ventos loucos, dos pensamentos,
circunstanciados e codificados
em redemoinhos de sentimentos...
ralleirias -metateatro
 


Enganos da felicidade...

Enganos da felicidade do devir e do porvir...
Pão e água aceitos em troca do banquete.
Ideais rasos, num mundo de glórias pífias distribuídas à varejo.
Papeis secundários diante da real existência.
Bois de moinho na moenda das próprias vidas...

Muitas de nossas pressupostas conquistas,
detêm também o dom de sugar nossas almas.
Nossas provisórias propriedades e a maioria
de nossos requisitados méritos, são cárceres.
Sentenças voluntárias que cumprimos,
pagando por um valor imaginário numa
dívida herdada de nossos antecessores...
Bois de moinho, rodando na mesma trilha...
Moenda de nossos sonhos, farinha de nossas vidas...
Pisamos nas migalhas dos grãos que semeariam a
lavoura de nossas reais existências.
E todos vencidos por estes devaneios, existimos em
vidas que nunca são nossas...
Deixaremos também um amargo legado, um mesmo brete,
para um mesmo gado...
Caminhos que nunca trouxeram a tão esperada satisfação....
a tal verdadeira realização.
E poucos irão atinar, e então lançar o olhar, acima e além
do que prende a manada...
Eis que a maioria, resignada e com o olhar fixo nesta trilha,
morrerá em vão...

Bois de moinho na moenda das próprias vidas...
Papeis secundários diante da real existência.
Ideais rasos, num mundo de glórias pífias distribuídas à varejo.
Pão e água aceitos em troca do banquete.
Enganos da felicidade do devir e do porvir...

ralleirias (das lutas de classe)


É tão simples pra tua cabeça...

É tão simples pra tua cabeça...
queria saber ser assim...
Espero francamente que o tempo passe
sem que nunca esqueças de mim...
Que as mornas tardes de primavera
onde nos conhecemos,
se repitam e repitam... indefinidamente....
E que um sol, como o daquelas tardes mornas
esteja sempre e sempre disponível, pra gente...
ralleirias