quinta-feira, 26 de setembro de 2024

O Tempo em Henri Bergson: Reflexões sobre 'os tempos' modernos...

O Tempo em Henri Bergson: Reflexões sobre 'os tempos' modernos...

Henri Bergson nasceu em Paris, no dia 18 de outubro de 1859, e foi uma figura marcante da filosofia moderna. Ele desafiou as ideias rígidas e mecanicistas da ciência e propôs uma visão mais viva e intuitiva do tempo. Em 1927, Bergson foi premiado com o Prêmio Nobel de Literatura por sua brilhante exploração filosófica, que influenciou tanto o pensamento quanto as artes.

Bergson fez uma distinção fundamental entre dois tipos de tempo: o tempo medido (aquele dos relógios e agendas) e o tempo vivido (aquele que sentimos passar, em momentos profundos ou sutis). E essa visão pode nos oferecer insights valiosos para refletirmos sobre nossa vida hoje, cercada pela pressão dos prazos e das obrigações e mesmo dos assujeitamentos dopaminérgicos e ainda, relacionais... 

O Tempo da Ciência vs. a Duração Vivida

Quando falamos de tempo da ciência, estamos nos referindo ao tempo que pode ser medido em segundos, minutos e horas. É o tempo que usamos para estruturar o dia, organizando compromissos e tarefas. Esse tempo, segundo Bergson, é uma abstração, algo que congelamos para podermos medir e controlar. O que é prático, mas pode ser limitante.

Por outro lado, Bergson propõe também a ideia de duração vivida...(como 'aquele momento' aonde todos estavam sentados na varanda, conversando tranquilamente e que pareceu bem maior, mais 'dilatado'- que acredito que possamos reconhecer nas nossas próprias experiências). A duração não pode ser dividida em pedaços, ela é sentida como um fluxo contínuo, sequencial, em processo.... Pense em quando está profundamente envolvida em algo significativo: o tempo parece passar de maneira diferente, não é? Há momentos em que parece voar, enquanto em outros, se alonga.

Na vida diária, marcada por responsabilidades e rotinas, também sentimos que o tempo cronometrado acaba impondo uma certa rigidez. Mas a sua percepção de tempo pode ser mais rica e fluida, como Bergson sugere. Cada instante vivido, quando estamos realmente presentes, é qualitativo, e não poderia ser então reduzido a uma simples sequência de números no relógio...

O Presente Como Memória Viva

Uma ideia central de Bergson que pode ser útil para nós é a de que o presente carrega consigo o passado. Ou seja, nossas experiências anteriores não estão simplesmente atrás de nós, mas se entrelaçam com o momento presente. Elas moldam quem somos agora, criando uma continuidade, uma fluidez que transcende o tempo linear. Isso se aplica perfeitamente à forma como enfrentamos nossos desafios e crescemos ao longo do tempo.

Em nossas conversas, quando falamos sobre as pressões do cotidiano e a busca por equilíbrio ( processo de busca homeostática sistêmica), vejo como essa noção de 'duração vivida' pode ser útil...                        Ao reconhecer que seu presente está carregado com as experiências e sabedorias que 'você acumulou', talvez possamos criar um espaço de consciência mais profundo, onde o tempo deixa de ser uma série de compromissos agendados, para se tornar uma oportunidade de presença genuína e manifestação...

Intuição e Intelecto

Bergson também faz uma distinção interessante entre os registros do intelecto e da intuição.                  O intelecto tende a dividir e categorizar o tempo, como fazemos com nossas agendas e listas de tarefas. Já a intuição é a capacidade de experimentar o tempo de maneira direta e vivencial. Quando deixamos de lado a lógica estrita e nos conectamos mais profundamente com o que estamos sentindo no presente, acessamos a intuição. Isso pode nos ajudar a encontrar um ritmo de vida mais autêntico, menos condicionado pelos horários e seus ritos assujeitados.

Quando em momentos de paz e clareza, onde o tempo parece suspenso, e tudo ao redor flui naturalmente, a intuição se manifesta e nos permite viver o tempo em sua essência, de forma mais harmoniosa...

O Tempo Criativo

Outra ideia potente de Bergson é a noção de que o tempo é essencialmente 'criativo'.                  Diferente da visão tradicional, em que o tempo é algo que apenas passa, para Bergson, o tempo está constantemente criando 'o novo', e cada momento não é uma repetição do anterior, mas traz a possibilidade de algo inédito, uma abertura para o inesperado.

Penso que essa visão pode ser inspiradora para refletirmos sobre nossas conversas, em cada sessão, cada novo insight, não estamos simplesmente revisitando os mesmos problemas, mas explorando novas maneiras de pensar e de viver. O tempo, para Bergson, não é um ciclo fechado, mas um 'fluxo em constante evolução'. Isso nos lembra que sempre há espaço para transformação, para o inesperado, para o crescimento...

Ao trazer essas ideias de Henri Bergson, espero que elas possam ser um convite para refletirmos sobre nossos próprios tempos. Seu tempo, como você o vive? O que o seu ritmo atual, revela sobre suas prioridades? E, algo bem importante... como podemos integrar essa noção de 'duração' em nossas vidas diárias, permitindo que o tempo seja algo que sentimos e vivemos, um aliado, e não apenas algo que medimos?

E então, o tempo, como Bergson nos ensina, é mais do que uma sequência de compromissos: ele é a própria 'essência da nossa experiência', fluido, criativo, e sempre carregado de significado. Talvez, ao observar o tempo por esse prisma, possamos encontrar novas maneiras de navegar pelas demandas da vida, equilibrando o tempo cronometrado com o tempo vivido mais qualificadamente....

- Crônicas das clínicas_sistêmicas - metateatro 

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