Inspirado pelo trabalho do filósofo francês Paul Virilio*, desenvolvi uma análise sobre a velocidade e suas implicações na consciência e na experiência humana. Virilio explora como a velocidade, enquanto fenômeno determinante, transforma nossa relação com o tempo, o espaço e a realidade. Quanto maior a velocidade, mais fragmentada e distorcida a nossa percepção do real.
Esse conceito encontra eco em meu poema, onde a fluência das ideias reflete a transição rápida entre significados. **A velocidade não se manifesta apenas em fenômenos físicos, mas também na evolução do pensamento e da consciência**, moldando a maneira como percebemos e experienciamos o mundo. Nesse movimento acelerado, os significados se dissolvem e se transformam, colapsando, como na teoria quântica, onde a função de onda se quebra e gera o ato, o real.
No poema, a transição entre o que foi e o que será não é aleatória, mas governada pelo desejo e pela vontade, como um fluxo contínuo que responde à força do momento. A consciência, assim como a velocidade, é uma força transformadora, que traz à existência o que antes estava em estado potencial.
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**Poema**:
*Vejo o tempo
me contando uma estória.
Eu olho, e recebo a velocidade
como resposta.
Não há verdade nem mentira,
talvez, pressupostos e enganos.
Aleatoriedade de eventos num
horizonte que emula um limite.
Todas às percepções que se vestem
com o real estão, contudo, ainda nuas.
Significâncias são também um lapso
da vontade em cume, que pode ser
um engano, parcamente coordenado
pelo desejo.*
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Neste primeiro bloco, o poema sugere que a percepção da realidade é uma construção efêmera, **uma resposta instantânea à velocidade**. O que parece sólido e real está, de fato, nu e vulnerável. As significâncias são moldadas por desejos, que podem ser fugazes ou equivocados. Aqui, o leitor é convidado a perceber que a realidade é constantemente formada e deformada pela velocidade do pensamento e pela fluidez da vontade.
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*E não são as montanhas,
não mais que ondas, quebrando?
Nem o mar ou a ondulação é a onda,
mas são eles uma dobradura do irreal,
como se real fosse, adentrando o
então, daí sendo. O que é, não foi,
era e será um então?*
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Aqui, a metáfora das ondas e montanhas sugere o colapso das fronteiras entre o real e o imaginário. **A velocidade quebra esses limites, revelando a fluidez entre o que "é" e o que "parece ser"**. Essa fluidez reflete o conceito de Virilio, de que a velocidade pode fragmentar nossa percepção do tempo, rompendo a linearidade da experiência.
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*O quando, já foi desejo,
mas, ampara-se na causalidade
do acaso, e rompe o instante,
adentrando o agora, equilibrando-se
no enquanto, assim, ele, num instantâneo parido em 'agora', é.
Na crista da onda, também
o ápice do real
migra ao nada,
e seguirá
pois, num até...*
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Neste trecho, a velocidade se manifesta de forma mais explícita. **O fluxo do pensamento acelera e se dissolve em novos significados**. O "agora" surge como o ápice, mas já em colapso, pronto para se transformar no próximo "ato". Assim como na alteração das ligações covalentes em um átomo que se transforma, **o pensamento, ao colapsar, gera o real**, e a velocidade age como o catalisador dessa transição.
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A ideia central de Virilio sobre a velocidade como transformadora da percepção se entrelaça perfeitamente com a estrutura do poema. A velocidade não apenas define o ritmo do pensamento, mas também molda a realidade que experienciamos. **Cada momento é parido pela consciência, como o colapso de uma função de onda, onde o potencial se torna ato no instante em que é percebido**.
Ao longo do poema, a velocidade atua como uma força que desdobra o real, fazendo com que o leitor se mova entre diferentes camadas de significado. Isso amplifica a percepção, levando o leitor a questionar o que é "real" e o que é apenas uma "dobradura do irreal". **A reflexão sobre a natureza do pensamento, a consciência e a transformação coloca o leitor em uma posição ativa, desafiando-o a acompanhar o ritmo e as implicações da velocidade na criação do real**.
Ao fim, o poema não apenas ecoa as ideias de Virilio, mas também provoca o leitor a expandir sua própria compreensão, integrando a consciência com a velocidade da transformação. O impacto é duplo: intelectualmente, o texto oferece uma nova visão sobre o real e a percepção; emocionalmente, faz o leitor sentir a aceleração da própria mente, em busca de novos entendimentos.
ralleirias -metateatro

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