quinta-feira, 29 de maio de 2025

Transcrição de entrevista com Félix Guattari em abril de 1987. - "O ANTI-ÉDIPO" E A RUPTURA

 

FÉLIX GUATTARI

"A psicanálise precisa abrir as janelas do consultório!"

 "O ANTI-ÉDIPO" E A RUPTURA

Entrevistador: Em 1972, você e Deleuze escreveram "O Anti-Édipo". Foi um rompimento com Freud?

Guattari: Sim! "Mas Lacan também rompeu... só não admite. (risos) Nossa crítica foi ao estruturalismo — reduzir o inconsciente a linguagem é empobrecer a análise."


Em 1972, você escreveu com o filósofo Gilles Deleuze, "O Anti-Édipo".

Foi uma ruptura com a ortodoxia freudiana?

Sim, certamente, mas de qualquer maneira, haviam muitos outros que fizeram essa ruptura, ao mesmo tempo que estavam dentro desta ortodoxia.

Em particular Lacan e os lacanianos, que fizeram uma ruptura com o freudismo

Mas eles não querem reconhecê-lo. Esse é o seu negócio!

Mas a nossa foi talvez mais uma ruptura com o estruturalismo na psicanálise.

Quero dizer, apenas... nós conversamos sobre isso no começo...

Ao fato de reduzir as produções do inconsciente a fatos da linguagem

e reduzir a análise a um trabalho relacionado à linguagem.

E, portanto, reduzi-lo a um trabalho muito ruim, porque, infelizmente, os psicanalistas estruturalistas costumam se contentar com a escuta, quase sem intervir ... sem ...

Fazendo uma teoria inteira sobre o fato de que é assim que deve ser somente através da escuta e do silêncio - em que eu não acredito.

Mas enfim, não vamos entrar nesse aspecto inteiro das coisas.

Então, depois da ruptura, já que no fundo estávamos dizendo:

Sim, de fato essa subjetividade inconsciente é muito importante fora da norma, fora dos quadros comuns.

Mas então, não é algo que vamos peneirar, que vamos ocupar nas salas dos psicanalistas, sobretudo com a virada que as coisas tomaram, mas é algo que também é levantado em outro lugar, por exemplo, em uma classe.

Existe toda uma corrente de pensamento em torno de Fernand Oury, de Celestin Freinet que dizem:

"nós podemos fazer uma espécie de psicanálise na escola".

Em um certo tipo de escola que levanta o problema da análise, também dentro de instituições, como em unidades de saúde, instalações de cuidados para doentes mentais. Isso se coloca também na vida cultural, no teatro, no cinema - se coloca em todo lugar.

E bem, surgirá cada vez mais, na medida em que a subjetividade é esmagada - se você me permitir essa expressão pelo sistema de mídia de massa, pela publicidade, para essas enormes instalações coletivas que produzem sujeitos como se produzissem carros ou sapatos.

O problema de reencontrar não um domínio, mas uma sensação de singularidade

em sua relação com a vida, com a existência.

Este é um problema que surgirá cada vez mais e mais!

Cada vez mais e mais pessoas finalmente terão menos segurança no trabalho, na sua vida social e terão cada vez mais a necessidade de se construir, de se fabricar e esse é o problema analítico por excelência.

Então, nosso ataque contra Freud e contra Lacan é finalmente em nome da descoberta psicanalítica.

É para que a psicanálise não continue a se afundar nessas brigas dogmáticas

em capelas que finalmente nos apresentam uma prática de análise cada vez mais pobre e cada vez mais estéril.

- Isto é, seria necessário sair um pouco do consultório?

Sim, sim, evidentemente e ainda estar dentro do consultório.

Sair do consultório, de certa forma, é abrir as janelas do consultório.

E estar preparado para ouvir todo tipo de coisa, outros tipos de problemas, que estritamente problemas de identificação, ao pai, mãe, problemas intra-familiares

ou toda essa cozinha que chamamos de "matemas do inconsciente"

tal como o estruturalismo se desenvolveu...

"A subjetividade está sendo ESMAGADA pela mídia de massa, que fabrica pessoas como sapatos!"

 A PSICANÁLISE FORA DO CONSULTÓRIO

Guattari defendia que o inconsciente não cabe em salas de análise: ele está na escola, no cinema, nas ruas! Correntes como as de Oury e Freinet já levavam a psicanálise para espaços coletivos. 

O QUE GUATTARI PREVIA:

  • A subjetividade seria massacrada pelo sistema capitalista;
  • As pessoas precisariam se reinventar em meio à insegurança social;
  • A psicanálise deveria abrir as janelas ou virar peça de museu.

A psicanálise está pronta para escutar o mundo — ou vai ficar presa no divã? 

Trecho da entrevista com Félix Guattari - abril de 1987 - crônicas sistêmicas 
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quinta-feira, 8 de maio de 2025

instâncias

Na tradição budista, numa analogia metafórica, explica-se também
o mundo em seis instâncias, que podem acontecer na vida de todos
os entes ... são como as ocorrências diárias, cíclicas, são elas como
estágios... o reino dos infernos(onde as soluções são violentas
e agressivas e geralmente causam dor), o reino dos fantasmas
famintos ( onde obcecados por algo, vivem mergulhados em
devaneios e sequiosos por seus ideais), o reino dos animais
(onde seres que se libertaram dos dois primeiros reinos estão
sujeitos e à mercê de suas naturezas selvagens, que não são
boas nem más, mas que podem regredir pela violência exercida
ou recebida..) depois há o reino humano, onde quase todos já
sabemos como é complicado exercer o que chamamos de
humanidade, depois ainda, há o reino dos semideuses, seres
que vivem de forma competitiva, mas nunca alcançam seus
objetivos, pois estes são móveis e mostram-se sempre
insatisfatórios mesmo ao próprio olhar, e finalmente, o
reino dos deuses, onde tudo é possível e fácil, mas que
também acabará por ruir, pois o resto dos mundos
correlacionados muda, esvaziando a forma e conceito
e a graça destas deidades...
crônicas das asceses místicas

sábado, 3 de maio de 2025

As necessidades causais

As necessidades causais,
por nós e em nós, caçam...

Correndo atrás do tempo,
devorando verdades, 
aparências
e todas as invenções,
inclusive
as identidades.
-Metateatro _2018

Invólucro

 Esta é uma parte do Shemá da hora de dormir, as preces e meditações antes do sono, encontradas no Siddur após o serviço noturno, Maariv, que é recitado após o anoitecer, geralmente após o Minchá (oração da tarde). 

A oração inclui a recitação do Shemá, com duas bênçãos antes e duas depois, seguida da Amidá (oração silenciosa). Algumas comunidades adicionam uma terceira bênção entre o Shemá e a Amidá, e outras orações e versículos bíblicos adicionais.

Maariv é uma forma de encerrar o dia com gratidão e de se preparar para o descanso, além de ser um momento de conexão com Deus e de fortalecer a fé.
No Shabat (Sábado), a recitação de Maariv é uma parte importante do serviço noturno, com algumas variações na recitação em relação aos dias da semana.
Embora o Maariv possa ser recitado antes do anoitecer, algumas comunidades recomendam que o Shemá seja repetido após o aparecimento das estrelas.

Pois trata-se de um 'invólucro' de proteção para acessar aos campos e terrenos sutis que se descortinam, após o bardo do sonho se iniciar.

Um dos nomes mais antigos de Deus é "El" — e vemos esse nome refletido nos nomes dos anjos.

O primeiro anjo é Michael - "mi" = "quem" - "C" = "como" [é] como Deus — à direita.
O segundo anjo é Gabriel - a Gevurah, o poder de Deus — à esquerda.
O terceiro anjo é Uriel - a Or, a luz de Deus — à frente.
O quarto anjo é Rafael - curado por Deus — seguindo atrás.
O quinto é Shekhinat El - a Shekhinah, a presença feminina de Deus — acima da cabeça.

Nesta recitação, os sons da respiração são marcados, servem como lembretes para inspirar profundamente e de forma completa enquanto se realiza a meditação, sempre pelo nariz, segurando levemente conforme seja confortável.
Essa meditação traz grande proteção e conforto, podendo ser usada como um mantra em qualquer lugar e a qualquer momento.

"Be-shame adon-iy
mi-mi-nee mich-a-el
oo~miss-im-molee
gav-ree-el
oo~me-lif-in-iy
Uriel
oo~may-ach-or-iy
raf-a-el
va-al row-shee
shech-ee-nut el"

"ADONAI B’SHEM 
be-shame adon-iy 
-In the name of the Eternal

MICHAEIL MIMINI 
mi-mi-nee mich-a-el 
-To my right Michael

U MISIMOLI 
oo~miss-im-molee 
-And to my left

GAVRIEL 
gav-ree-el 
-Gabriel

U MI LIFNAI 
oo~me-lif-in-iy 
-And in front of me

URIEL 
oor-ree-el 
-Uriel

U MEIACHARAI 
oo~may-ach-or-iy 
-And behind me

RAFAEL 
raf-a-el 
-Rafael

ROSHI V’AL
va-al row-shee 
-And above my head

EIL SHEKHINAT 
shech-ee-nut el 
-The Eternal Shekhina


Tradução da explicação do rito, preservando os nomes mágicos:

Um dos nomes mais antigos de Deus é "El", que aparece também nos nomes dos anjos.

  • O primeiro anjo é Michael – cujo nome significa "Quem é como Deus" – associado ao lado direito.
  • O segundo anjo é Gabriel – representando a força (Gevurah) de Deus – relacionado ao lado esquerdo.
  • O terceiro anjo é Uriel – simbolizando a luz (Or) de Deus – posicionado à frente.
  • O quarto anjo é Rafael – que representa a cura por Deus – posicionado atrás.
  • O quinto elemento é a Shekhinat El, a presença divina feminina (Shekinah), que paira acima da cabeça.

A prática sugere respirações profundas durante a meditação, feitas pelo nariz e com uma breve pausa confortável, para promover proteção e conforto.

Sobre os nomes dos anjos:

  1. Michael – No judaísmo e cristianismo, ele é o comandante das forças divinas, aparecendo em histórias como a proteção do povo de Israel e a batalha contra o mal.
  2. Gabriel – Conhecido como o mensageiro divino, Gabriel desempenha um papel crucial na anunciação do nascimento de Jesus e em outras comunicações proféticas.
  3. Uriel – Menos conhecido que os outros, Uriel aparece em textos apócrifos como aquele que traz sabedoria e iluminação.
  4. Rafael – Frequentemente associado à cura, Rafael aparece no Livro de Tobias (Tobit), onde guia e cura personagens importantes.
  5. Shekinah – Representa a presença divina no mundo físico, com um forte aspecto feminino e maternal na tradição judaica mística. Ela é entendida como a manifestação de Deus habitando entre os humanos.

Esses anjos e a Shekinah têm papéis fundamentais tanto no contexto litúrgico quanto no misticismo judaico e cristão, refletindo aspectos diferentes de Deus, como proteção, força, iluminação, cura e presença.

- crônicas das asceses místicas



domingo, 27 de abril de 2025

Doze Elos da Originação Dependente: Uma Leitura Sistêmica da Consciência e do Sofrimento

Na tradição budista, os Doze Elos da Originação Dependente (Pratītyasamutpāda) revelam a cadeia de causas e efeitos que sustentam o ciclo do sofrimento (Samsara). Trata-se de uma cartografia da consciência que vai da ignorância à morte, passando por todas as formas de desejo, apego, luta e frustração. Mas... e se essa antiga sabedoria pudesse dialogar com os sistemas afetivos mapeados pela neuropsicologia moderna e com os dilemas existenciais do mundo contemporâneo?

Neste artigo, propomos uma leitura ampliada: ligando os elos da originação dependente aos impulsos afetivos primários do cérebro, aos reinos simbólicos da roda da vida e às dinâmicas sociais do "eu civilizatório" em crise.


 O Ciclo do Sofrimento: Doze Elos em Movimento

A cadeia começa na Ignorância (Avidyā) — não o simples "não saber", mas a inconsciência fundamental que nos separa da realidade como ela é. Isso ativa os Condicionamentos (Saṃskāra): padrões mentais herdados ou adquiridos que moldam nossas reações.

A seguir, surge a Consciência (Vijñāna) e sua tentativa de diferenciar e identificar. Logo se formam Nome e Forma (Nāma-rūpa), ou seja, a experiência de ser um "eu" com um corpo e uma história. Os sentidos se abrem (Ṣaḍāyatana), entramos em contato com o mundo (Sparśa) e sentimos prazer ou dor (Vedanā).

É então que a engrenagem acelera: Desejo (Tṛṣṇā), Apego (Upādāna), e o esforço para Tornar-se alguém (Bhava) — um eu ideal, um papel, um status. Nascemos de novo (Jāti), seja no mundo ou em nossos papéis sociais. E então, inevitavelmente, enfrentamos a Velhice e Morte (Jarā-maraṇa) — física, psíquica, simbólica.


 Uma Ponte com a Neuropsicologia: Os Sete Sistemas Emocionais

Segundo o neurocientista Jaak Panksepp, os mamíferos compartilham sistemas afetivos básicos, que orientam comportamentos:

  • BUSCAR (SEEKING)

  • CUIDAR (CARE)

  • MEDO (FEAR)

  • DESEJAR / ACASALAR (LUST)

  • RAIVA (RAGE)

  • JOGAR (PLAY)

  • AFLIÇÃO (PANIC/GRIEF)

Cada elo da cadeia pode ser correlacionado com esses sistemas, revelando como o sofrimento emerge de impulsos legítimos desregulados. Desejo não é o vilão; o problema é o desejo sem consciência, o impulso sem clareza, o movimento que nos prende em vez de nos libertar.


 Os Três Animais da Ignorância

A famosa Roda da Vida budista apresenta três animais em seu núcleo:

  • Porco (Ignorância)

  • Galo (Desejo)

  • Cobra (Avidez ou Aversão)

Eles são forças arquetípicas que alimentam o movimento do Samsara. Em nosso cotidiano, aparecem como negação da realidade, compulsão por prazer e repulsa ao incômodo. São três formas de evasão do presente.


 Os Seis Reinos: Estados Psíquicos de Consciência

Na cosmologia budista, os seres podem renascer em seis reinos, mas aqui os lemos como estados mentais arquetípicos:

  1. Reino dos Deuses – Prazer contínuo, mas distraído (autoengano, alienação)

  2. Reino dos Semideuses – Luta por superioridade, inveja (competição)

  3. Reino Humano – Capacidade de discernir, mas dominado pelo desejo (o mais fértil para libertação)

  4. Reino Animal – Instinto, medo, rotina

  5. Reino dos Fantasmas Famintos – Carência, insatisfação crônica

  6. Reino Infernal – Ódio, dor, desespero

Cada elo da cadeia pode ser posicionado em um desses reinos, representando o estado de alma que acompanha aquela etapa.


 A Crise do "Eu Civilizatório"

Quando olhamos para essa mandala de elos e reinos sob o prisma da contemporaneidade, vemos uma civilização marcada por:

  • A ignorância institucionalizada: não vemos a interdependência das coisas.

  • Condicionamentos sistêmicos: heranças culturais e psíquicas que repetimos sem questionar.

  • Desejo e apego como motores econômicos: quanto mais desejo, mais se consome, mais se esgota.

  • Tornar-se alguém como ideal narcisista: a vida vira uma busca por validação, sucesso e imagem.

E assim o ciclo continua... até que se rompa o automatismo.


 Para além do ciclo: consciência, compaixão, presença

Romper os elos não é destruir desejos ou eliminar emoções. É conhecer o ciclo, observar os impulsos, e cultivar lucidez e compaixão. Só assim é possível sair da reatividade e entrar em um estado de presença que acolhe sem se prender, que sente sem se perder, que deseja sem escravizar.

É possível renascer — não como uma identidade, mas como presença lúcida, livre, amorosa.


 Referências e Inspirações

  • Panksepp, J. Affective Neuroscience

  • Solms, M. The Hidden Spring

  • Buda, Sūtras do Tripitaka

  • Thich Nhat Hanh, The Heart of the Buddha’s Teaching

  • Clarissa P. Estés, Mulheres que Correm com os Lobos

  • Reich, W. – Teoria dos Traços de Caráter

  • Lacan, Freud, Gendlin, Jung e Deleuze – aportes da psicanálise e da esquizoanálise

  • Vivência em gestalt-terapia, terapias sistêmicas e epistemologias do Sul


- Crônicas sistêmicas 



quarta-feira, 23 de abril de 2025

um guerreiro

O embate direto de um guerreiro,
e o primeiro é com os seus valores
em confronto com os seus lugares
de desejos ou pertencimentos justos
e verdadeiros. É na labuta é que se
descobre que é no amor que nasce
a coragem, e este é o valor que nos
entrega a maior mensagem, são nas
nossas mais duras lutas que nos
tornamos mais reais, fortes,
equilibrados e muito mais leais
com a vida e com todo mundo
e muito mais verdadeiros!
Ogunhê !



terça-feira, 22 de abril de 2025

suporte

Ninguém parece habilitado 
a exercer o tal amor divino
mas, só até que decida. Amor, 
se pratica amando, a si e ao 
próximo, vivendo-o com a 
compreensão de que constrói-se 
ele junto com vida, e mesmo que 
o próximo não saiba, entenda e até
 não queira ou importe, este mesmo 
amor em si é e será sempre como 
o nosso divino suporte.
-metateatro