quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

ao imutável

 Se há consciência,

dissolve estas

desnecessárias 

identidades escravas

formadas entre o 

arcabouço de palavras.

Se há consciência

Não outorga sólida resistência

para as coisas que determinam

tua restrita existência...

Se há consciência,

não negue

ou nutra.

Não, jamais um sutra

nem não ou sim

início e fim...

Se há consciência

há espaço

amplo

único

o potencial do vazio

vai ao imutável

e ao infinito

Se há consciência

não há

necessidade

de um todo tolo

nem um tudo...

só de um

silêncio

mudo...

ralleirias - Crônicas das asceses místicas

luxo

Não entende meu 'senhor'?

O seu tédio, é um desaforado luxo.

Seu incômodo com sua falta de gozo,

sobre sua insatisfação quanto a

qualidade das quinquilharias que

consome, e aos comportamentos

alheios que não lhe agradam em

estilo e performance, beira o abismo

entre a estupidez e ingenuidade,

sua queixa desnuda a sua pálida

e mimada consciência capitalmente

infantilizada, sobre o atual estado

das coisas, saiba o 'senhor',

que a imensa maioria de nós,

mal consegue se mover em direção

à satisfação de nossas necessidades

mais básicas, como se alimentar,

trabalhar, vestir, ter aonde dormir,

sobreviver ...

pensar fora da reatividade e existir

com uma mínima dignidade ...

e todos nós servimos ao mesmo

sistema que injustamente cria estas

diferenças que fazem o seu tedioso

e desaforado luxo. Não entende 

meu 'senhor'?

-oroboro-

- crônicas das lutas de classe_2023

aonde não está

 Sei aonde não está você.

Amada flor da lua lunar

E ao mundo, isso é tão triste.

Nós bem tentamos te esquecer...

Mas a tua lembrança forte, insiste.

E que falta nos faz o teu ser!

Sim, tudo tem um tempo de acontecer

de chegar, florescer e perecer...

Mas, já não te ver sorrir, é tão triste!

E nem adianta tentar

deixar de te amar

só porque tu já 

não existe ...

ralleirias - Amada flor da lua lunar



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

nenhuma pista...

 Às vezes, 

a incerteza corre, 

tentando andar 

de mãos dadas 

com a conquista...

Às vezes, a incerteza cai

tentando seguir a esperança

e assim, à perde de vista...

E assim, às vezes a incerteza 

acaba, e propriamente de si, 

não sobra nenhuma pista...

ralleirias- meta teatro

O grande poeta

 O grande poeta 

para os seus 

cupinchas, 

nas suas firulas

rebuscadas

fala coisas 

das relíquias 

de sua sala, 

que em mil 

bobagens mais 

ele destrincha...

Numa ode 

disparada

igual um cavalo 

o qual relincha...

E gosta das coisas 

datadas, 

e angustiadas

de pop arte, 

e é um baluarte 

beatnik...

O grande poeta 

que mostra 

que sabe tudo

em seu tom 

embargado

e sisudo e

em sua crítica 

apurada

demonstra seu

grande estudo

e saber 

adestrado

finito e 

colonizado

e ainda assim

é muito chique...

O grande poeta

se dá ao chilique.

- crônicas das lutas de classe

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

dos outros

Ainda que sejamos autônomos, 
e  muy poderosos ou até mesmo reis ou eremitas, 
me parece claro que tudo, absolutamente tudo, 
até nossas identidades, mundos objetivos e subjetivos, 
finalidades, percepção imagética, origem e destino, 
passado e futuro, linguagem, víveres e até os possíveis sonhos... 
dependeram, dependem e dependerão dos 'outros', e de todos, 
os que vieram antes, os que estão aqui agora, os que ainda surgirão, 
sejam conceitos, seres ou coisas...
 - crônicas das lutas de classe.

um deus de seus objetos...

O novo pequeno burguês, 
bem se considera como 
um deus de seus objetos...
E é um deus, que gera dejetos...
Com a sua enorme pança 
empanturrada, impera no 
seleto burgo, o qual 
é um escombro de tudo 
o que não precisava... 
e nada lhe basta, nada...
O novo pequeno burguês, 
é abastado freguês da mais valia, 
vai sorvendo às vidas dos outros, 
os pobres... que lhe vendem seus
tempos e perdidos sonhos, para
engordar a obtusa pança insaciável 
do pequeno burguês 
e de sua vida mediocre e vazia...
Almas de mães afastadas 
de seus rebentos 
no fastidioso café da manhã...
Almas de pais, que já não 
importam mais, no almoço...
Almas como a daquela criança, 
que não vai mais se criar no jantar.
E exploda-se o mundo... 
pois o pequeno burguês, 
o novo deus dos objetos, 
só quer mesmo 
de seus privilégios, gozar... 
ralleirias - Crônicas das lutas de classe