quarta-feira, 8 de abril de 2026

A vinda dos Orixás do Orun (Céu) para o Ayê (Terra) ...

 A vinda dos Orixás do Orun (Céu) para o Ayê (Terra) é um processo mítico da tradição iorubá que narra a transformação de um pântano inóspito no mundo habitável. O surgimento não é apenas uma "chegada", mas uma missão de fundação, onde cada divindade traz um elemento necessário para a vida.

A ordem de chegada e contextualização segue a estrutura dos mitos de criação (Itans):
  1. Exu: O primeiro a ser criado e o primeiro a transitar entre Orun e Ayê. Exu é o mensageiro, a força do movimento, essencial para abrir caminhos e garantir que a comunicação entre o divino e o terreno fosse possível.
  2. Nanã Buruquê: Considerada por muitas tradições como a orixá mais antiga, senhora dos ciclos (nascimento e morte), Nanã é a própria lama primordial, o fundo dos lagos que forneceu o material base para a criação da terra firme.
  3. Obatalá (Oxalá): O Grande Orixá, enviado por Olorum (Deus Supremo) para criar a terra firme sobre o pântano original. Oxalá veio com a missão de moldar o mundo e, posteriormente, os seres humanos, trazendo a ordem e a brancura da criação.
  4. Ogum: Chegou na sequência de Oxalá para abrir caminhos com sua espada de ferro. Ogum moldou a terra, permitindo o desenvolvimento da agricultura e da tecnologia, sendo um dos pioneiros na organização física do Ayê.
  5. Oxóssi: O orixá da caça e da fartura, responsável por povoar as matas e garantir o sustento alimentar, trazendo a harmonia entre o homem e a natureza.
  6. Iemanjá: Chegou para governar as águas salgadas, essencial para a fertilidade e a vida. Ela é a mãe de muitos orixás e acolhe os seres no Ayê.
  7. Oxum: A senhora das águas doces, do amor e da riqueza, garantindo a procriação e a doçura da vida. Ela se estabeleceu nos rios, trazendo a fertilidade.
  8. Xangô, Iansã, Obaluaê, Oxumaré, Ossaim: Outros orixás desceram para governar os elementos naturais (fogo, ventos, doenças/cura, ciclos e plantas).
Contextualização:
Itan narra que o Ayê era um pântano inabitável. Olorum chamou Obatala (Oxalá) para criar terra firme. Ele desceu com uma galinha de cinco dedos, um pombo e uma concha com terra (que representa Nanã) para jogar sobre o pântano. Após a criação, os orixás desceram para estabelecer o culto, a organização social e os fundamentos da vida, tornando o Ayê o lugar onde os seres humanos podem viver e reverenciar as forças da natureza.

O Orun 

O Orun é o plano espiritual e ancestral na cosmologia iorubá/candomblé, a morada de Olorum (Deus Supremo), dos orixás e dos ancestrais. É descrito como um lugar de encantamento, com nove camadas, onde os orixás, após viverem no Aiyé (Terra) como deificados ou criados por Olorum, mantêm sua existência, energia e natureza.
A Vida dos Orixás no Orun:
  • Ancestralidade e Divindade: Muitos orixás foram humanos poderosos (ancestrais deificados) que, após a morte, retornaram ao Orun, enquanto outros são divindades primordiais.
  • Intermediários: Do Orun, eles atuam como intermediários entre Olorum e os seres humanos, orientando, protegendo e amparando o destino dos fiéis no Aiyé.
  • Natureza e Energia: A vida no Orun é marcada pela conexão com as forças da natureza. Eles não são considerados deuses únicos, mas forças naturais e ancestrais que representam domínios da terra (água, fogo, floresta, ferro, etc.).
  • Continuidade: Diferente da visão cristã, a morte é vista como uma passagem, e o Orun é uma continuação da jornada espiritual, onde o espírito retorna e pode, em certos casos, reencarnar.
  • Conexão Egbé: A união entre o mundo invisível (Egbé Orun) e visível (Egbé Aiyé) é fundamental para o equilíbrio, estabilidade e prosperidade.
O Orun é retratado artisticamente como um lugar de danças, cores, toques e celebração da ancestralidade africana, preservando a identidade negra e a ligação com a natureza.
- Crônicas das asceses místicas

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