FÉLIX GUATTARI
"A psicanálise precisa abrir as janelas do consultório!"
"O ANTI-ÉDIPO" E A RUPTURA
Entrevistador: Em 1972, você e Deleuze escreveram "O Anti-Édipo". Foi um rompimento com Freud?
Guattari: Sim! "Mas Lacan também rompeu... só não admite. (risos) Nossa crítica foi ao estruturalismo — reduzir o inconsciente a linguagem é empobrecer a análise."
Em 1972, você escreveu com o filósofo Gilles Deleuze, "O Anti-Édipo".
Foi uma ruptura com a ortodoxia freudiana?
Sim, certamente, mas de qualquer maneira, haviam muitos outros que fizeram essa ruptura, ao mesmo tempo que estavam dentro desta ortodoxia.
Em particular Lacan e os lacanianos, que fizeram uma ruptura com o freudismo
Mas eles não querem reconhecê-lo. Esse é o seu negócio!
Mas a nossa foi talvez mais uma ruptura com o estruturalismo na psicanálise.
Quero dizer, apenas... nós conversamos sobre isso no começo...
Ao fato de reduzir as produções do inconsciente a fatos da linguagem
e reduzir a análise a um trabalho relacionado à linguagem.
E, portanto, reduzi-lo a um trabalho muito ruim, porque, infelizmente, os psicanalistas estruturalistas costumam se contentar com a escuta, quase sem intervir ... sem ...
Fazendo uma teoria inteira sobre o fato de que é assim que deve ser somente através da escuta e do silêncio - em que eu não acredito.
Mas enfim, não vamos entrar nesse aspecto inteiro das coisas.
Então, depois da ruptura, já que no fundo estávamos dizendo:
Sim, de fato essa subjetividade inconsciente é muito importante fora da norma, fora dos quadros comuns.
Mas então, não é algo que vamos peneirar, que vamos ocupar nas salas dos psicanalistas, sobretudo com a virada que as coisas tomaram, mas é algo que também é levantado em outro lugar, por exemplo, em uma classe.
Existe toda uma corrente de pensamento em torno de Fernand Oury, de Celestin Freinet que dizem:
"nós podemos fazer uma espécie de psicanálise na escola".
Em um certo tipo de escola que levanta o problema da análise, também dentro de instituições, como em unidades de saúde, instalações de cuidados para doentes mentais. Isso se coloca também na vida cultural, no teatro, no cinema - se coloca em todo lugar.
E bem, surgirá cada vez mais, na medida em que a subjetividade é esmagada - se você me permitir essa expressão pelo sistema de mídia de massa, pela publicidade, para essas enormes instalações coletivas que produzem sujeitos como se produzissem carros ou sapatos.
O problema de reencontrar não um domínio, mas uma sensação de singularidade
em sua relação com a vida, com a existência.
Este é um problema que surgirá cada vez mais e mais!
Cada vez mais e mais pessoas finalmente terão menos segurança no trabalho, na sua vida social e terão cada vez mais a necessidade de se construir, de se fabricar e esse é o problema analítico por excelência.
Então, nosso ataque contra Freud e contra Lacan é finalmente em nome da descoberta psicanalítica.
É para que a psicanálise não continue a se afundar nessas brigas dogmáticas
em capelas que finalmente nos apresentam uma prática de análise cada vez mais pobre e cada vez mais estéril.
- Isto é, seria necessário sair um pouco do consultório?
Sim, sim, evidentemente e ainda estar dentro do consultório.
Sair do consultório, de certa forma, é abrir as janelas do consultório.
E estar preparado para ouvir todo tipo de coisa, outros tipos de problemas, que estritamente problemas de identificação, ao pai, mãe, problemas intra-familiares
ou toda essa cozinha que chamamos de "matemas do inconsciente"
tal como o estruturalismo se desenvolveu...
"A subjetividade está sendo ESMAGADA pela mídia de massa, que fabrica pessoas como sapatos!"
A PSICANÁLISE FORA DO CONSULTÓRIO
Guattari defendia que o inconsciente não cabe em salas de análise: ele está na escola, no cinema, nas ruas! Correntes como as de Oury e Freinet já levavam a psicanálise para espaços coletivos.
O QUE GUATTARI PREVIA:
- A subjetividade seria massacrada pelo sistema capitalista;
- As pessoas precisariam se reinventar em meio à insegurança social;
- A psicanálise deveria abrir as janelas ou virar peça de museu.
A psicanálise está pronta para escutar o mundo — ou vai ficar presa no divã?

